Só estava aqui viajando com meus pensamentos e fazendo uma retrospectiva da minha caminhada até aqui e agora. Não sou mais dono deles (pensamentos). Conduzem-me por linhas passadas entre estações. Mas, o passado não passa. São linhas que constroem o presente e apontam para o futuro. É final de ano e dizem por aí que devemos meditar e desejar a todos “Boas Festas”, mesmo que seja um bordão ou um clichê repetitivo. Não importa. No instante, passou pela minha cabeça Meus 35 Anos de Jornalismo, se bem que antes disso aconteceram coisas boas e ruins.
Mergulho nas lembranças da minha idade desde quando criança na roça, ajudando meu pai a plantar e a colher o fruto do sustento. Dou um vôo rasante entre meus estudos no Seminário de Padres até o vestibular em 1970, e a conclusão do meu curso de Jornalismo em 1973 quando começou minha carreira profissional. Sim porque antes já realizava alguns serviços jornalísticos com colegas, como um Informativo para uma empresa metalúrgica no Centro Industrial de Aratu. Se não me falha a memória era a Tuperba. Trabalho alegre, feito com garra e vontade de vencer. Energias jovens, idéias inovadoras, mas tudo ainda sem as novas tecnologias da informática. Na base da máquina de datilografia.
Tudo começou mesmo, registrado e fundamentado, nos primeiros meses de 1973 no Jornal A Tarde como Revisor da Redação. Não se dava muita importância para a função. Pelo menos não se aparecia profissionalmente, mas era, verdadeiramente, o local certo por onde todo jornalista deveria iniciar sua trajetória. Tempos de ditadura, tempos de chumbo, tempos de prisão, tempos de tortura, repressão e censura. Nada de liberdade de expressão. Tínhamos regras severas e duras. Tempos de cão. Para ser admitido como Revisor, minha prova foi uma carta redigida e dirigida ao Redator-Chefe, Jorge Calmon.
Foi quase um ano de revisão de textos jornalísticos, corrigindo o português das reportagens. Nossa labuta intelectual junto às máquinas de linotipo, que não paravam de queimar chumbo com aquela zoado de trem, começava às 18 horas e, às vezes, varávamos a madrugada, eu e os companheiros. Lembro do velho Ariston que era nosso mestre para tirar as dúvidas de português e contava casos da sua militância política desde a ditadura de Vargas. Era um socialista convicto e sério. Seu filho Oberdan, Rubens Newton, e outros que ficaram no branco da massa cerebral completavam a turma do chumbo. Eram altas discussões políticas. Ali, todos eram “subversivos”, mas a ditadura não nos ouvia, nem sabia que a gente existia.
De lá, o Redator-Chefe me convidou para ser repórter especializado da área econômica. Confesso que tremi nas bases. Meu desejo era fazer parte do corpo redacional do jornal, mas não por um setor difícil e complicado. Não pude recusar. Era um desafio, pegar ou largar, e assim fui vencendo barreiras. Depois de seis meses ou um anos, recebi boas propostas de outros veículos de comunicação, inclusive para o Rio de Janeiro. Pedi demissão do Jornal, mas, ao saber, o jornalista Jorge Calmon conversou comigo; aumentou meu salário; e terminei ficando. Não sei até hoje se foi bom ou ruim. Só sei que guardo esse erro até hoje por que não arrisquei.
No meu retorno fui trabalhar na Editoria Geral, cobrindo todos os assuntos que pintassem nas pautas. Em pouco tempo, a Federação das Indústrias da Bahia me chamou para fazer parte da equipe da sua Assessoria de Comunicações. Foi lá que conheci a figura excêntrica e, porque não, folclórica do jornalista Luis Vasconcelos que não podia ver um “rabo de saia” em sua frente. Bons tempos. Nos divertimos muito nas boemias e nas festas. Depois retornei para a Editoria de Economia onde fiquei por cerca de 15 anos, decifrando o “economês” e comendo números e letrinhas.
Nessa época, na segunda metade da década de 70, acompanhei de perto a implantação do Pólo Petroquímico de Camaçari, entrevistando, principalmente, seus mentores, Rômulo Almeida e o secretário José de Freitas Mascarenhas. Entendiam do assunto e sempre colocavam à minha disposição todos os dados que precisava. Elaborei matérias memoráveis, e sempre na frente dos outros veículos, graças a confiança que eles tinham comigo. Por causa da ditadura, trabalhávamos sempre na base do “off”, sem citar as fontes. Tudo era censurado e quase ninguém se habilitava a dar entrevistas.
Enquanto estava na Editoria de Economia, até 1991, quando, então, resolvi vir para Vitória da Conquista assumir a chefia da Sucursal A Tarde, viajei muito pelo Brasil, fazendo reportagens sobre congressos, seminários e eventos da área econômica. Não me esqueço da reportagem-monólogo com o general Ernesto Geisel. Copiei as perguntas, seguidas das respostas: sim e não. Não era nem uma entrevista tipo pingue-pongue. Me recordo também da entrevista com o general João Figueiredo que só sentia cheiro de cavalo. Foi lá em Curitiba na inauguração da Volvo. Não posso deixar de citar os ministros Mário Henrique Simonsen e Delfim Neto, Severo Gomes (cara legal, boa gente), entre outros. Era difícil furar o cerco dos brutamontes dos seguranças.
Ainda nessa época cheguei a ser Assessor de Comunicação do Promoexport (Uma Agência de Exportação do Governo do Estado). De lá fui ser Assessor da Secretaria da Indústria e Comércio nos governos de Waldir Pires e Nilo Coelho. Andei pela Alemanha, em 1981, fazendo um curso de Economia de Mercado pela Fundação Konrad Adenauer. Conheci muitos empresários, economistas e executivos, especialmente, do Pólo Petroquímico. Firmei bons vínculos de confiança entre jornalista e a fonte, mas sem ultrapassar os limites profissionais.
Para resumir, porque tem muita coisa para contar desses 35 anos, e ninguém quer ouvir mais essa lengalenga, decidi em 1991, por opção minha, voltar às minhas raízes do interior, para chefiar a Sucursal do Jornal A Tarde, em Conquista, onde fiquei até 2005. Foi outra grande experiência e outro desafio, rodando por esse sertão do sudoeste. Muitas histórias guardo-as comigo, mas o fotógrafo José Silva pode narrá-las. Lembranças de muitos fatos que me marcaram nesse novo caminho de veredas e encruzilhadas.
Posso dizer que Meus 35 Anos de Jornalismo foram bem vividos, sempre seguindo a razão da ética, da seriedade e da honestidade. Errar, todos nós erramos, mas me envergonhava a omissão e a cobertura jornalística tendenciosa e facciosa. Ganhei inimigos que não gostaram e ainda não gostam do meu jeito de ser. Em termos profissionais, os amigos sempre foram tratados no mesmo nível dos outros. Sempre procurei não incrementar muito a amizade para não confundir e ultrapassar os limites entre pessoa e profissional. Nesses anos, sempre busquei separar uma coisa da outra.
Não posso também deixar de reportar a boemia dos botecos e dos bares da vida nos bons tempos de Salvador, e ainda aqui também. Os longos papos e aventuras com colegas das noitadas, poetas e escritores amigos. E as madrugadas de feijoada na Sete Portas, na Feira de São Joaquim, Mercado Modelo, nos inferninhos da Ladeira da Montanha, na Gameleira, Mercado da Baixa dos Sapateiros, Barbalho, Liberdade, São Caetano, Alto do Peru, Curuzu, Brotas, Gamboa e tantos outros saudosos locais, como avenida Carlos Gomes com Jeovha de Carvalho! Ainda peguei uma sobra dos tempos do jornalismo romântico. Agora sopram outros ventos do mundo da Internet.
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