Não somos gado, mas a humanidade hoje vive em disparada como no estouro da boiada. Como disse Geraldo Vandré, posso não lhe agradar, mas o chicote estala para uma nova corrida desenfreada, tendo como partida 2009. Fim de 2008 é apenas uma parada rápida para recuperar o fôlego e se embriagar no consumismo feito de apelos publicitários por todos os lados. A mente voa na rapidez da luz, controlada pelos chips da tecnologia que vão robotizando nossos passos.
No meu tempo de menino, um ano valia por 10 nos tempos de hoje, ou era uma eternidade. Como no poema de Drumonnd, a vida engatinhava. As datas hoje não são mais distantes, e não se ouve mais um Bom Dia com o olho no olho. É um Bom Dia amarelado. O tempo andava cadenciado, matutando e batendo o ponto para uma conversa, para contar histórias e causos. As crianças hoje falam com menos de um ano, e o computador é o seu primeiro brinquedo, no lugar das cirandas, do pião, do jogo-de-gude, do esconde-esconde e do “chicotinho-queimado”.
O Ano Novo não é mais Novo como antigamente, pois a busca intensiva do tempo perdido corre numa velocidade que o hoje já é o amanhã, e o ontem não conta mais. O tempo não é mais venerado e saboreado, apenas consumido e tragado como objeto do ter. O tempo só é visto como dinheiro e envelhece rápido. Não somos mais o senhor do tempo. Não mais paramos para prosear com ele. Somos dele escravos, num emaranhado de fios, ou satélites conectados.
O Natal não é mais o símbolo do nascimento do Menino Jesus, pelo menos para a maioria. É festa consumista; é corre-corre em disparada; é mais lixo jogado na terra que já consome 30% a mais da sua capacidade de renovação. No ritmo do consumo que não deve parar, os cientistas já vislumbram de que vamos precisar de duas terras em 2050 para suportar tanta sujeira. Uma matéria num jornal de São Paulo relata que durante o Natal os garis não podem tirar folga por causa do acúmulo de lixo que aumenta todo final de ano. São mais e mais embalagens de presentes, restos de comida e produtos enlatados jogados fora.
Por mais que sejamos otimistas, não são mais necessárias as previsões de guerras e de violência para 2009, feitas pelos senhores dos búzios ou das cartas. Nós construímos nossos caminhos pedras e sabemos muito bem que vamos ter de conviver com os conflitos e as destruições, inclusive advindas da própria revolta da natureza. O poder das armas e da ganância pelo domínio foi montado pelos homens, e não são apenas palavras de otimismo que vão derrubar tudo isso.
Vamos sim, continuar mais um ano em disparada, cada um na disputa e na competição pelo tempo para juntar mais dinheiro, e gastar mais e mais nas festas do final de 2009 e início de 2010 que logo se aproximam. Nos tempos de tragédias e catástrofes praticar algumas caridades e atos de compaixão. Aparecer nas TVs e nos jornais como solidários, e se estressar nos shoppings. Alguém aí pode até dizer que tenho tendência ao “terrorismo” e ao derrotismo. Pode até ser, mas os alertas pelo menos servem para que as pessoas tomem consciência do que está acontecendo com a humanidade. Podem servir para mudanças e transformações.
Em entrevista neste final de ano, o Teólogo da Libertação, Leonardo Boff, diz que temos pouco tempo e parca sabedoria, e alerta para a urgência de ações capazes de reverter o atual estágio de degradação do planeta Água, o que ele chama de risco de chegarmos a um ponto sem volta. O teólogo faz um apelo para que o homem adote um outro modo de produção e de consumo, e critica soluções paliativas como os créditos de carbono. Na sua visão, essa prática é um escândalo e implica aceitar que alguém possa legitimamente poluir e assim agravar o aquecimento global.
Com mais de 60 livros escritos, Boff declara que o projeto de modernidade de explorar os recursos da terra de forma ilimitada chegou agora ao seu limite. Sobre a política do biocombustível, destaca que ela prefere atender à máquina antes de atender ao estômago das pessoas. Lembra que atualmente o PIB mundial está na ordem de 58 trilhões de dólares, com um crescimento médio anual de 3,5%. A continuar assim, em 2050, este PIB subirá para 160 trilhões. Acontece que não se chegará a este crescimento porque não há recursos e serviços naturais suficientes.
Mas, segundo ele, se os povos da terra resolverem fazer um desarmamento geral, haverá fundos suficientes para resgatar todo planeta e propiciar aos seres humanos uma condição de vida aceitável. O orçamento militar mundial é da ordem de um trilhão e cem bilhões de dólares. Estudos revelam que com 24 bilhões/ano, poder-se-ia reduzir pela metade a fome do mundo. Com 12 bilhões poder-se-ia garantir a saúde reprodutiva de todas as mulheres, e com mais alguns bilhões garantir trabalho, habitação, saúde, educação e segurança para a humanidade. Lembrem das oito mil crianças de Darfur (Sudão) que pegam em armas e do povo de Zimbábue que morre de cólera e torturas. Lembrem dos presídios e da Nação África que morre de fome.
As previsões são sinistras, mas o teólogo suspira e nos conforta, afirmando de que temos meios econômicos e técnicos para transformar a Terra num Jardim do Éden. Para tanto, basta uma boa vontade dos homens que decidem os caminhos da humanidade. É só optarem em favor da vida, e não da morte. Depende de cada um de nós aliviar o pé do acelerador; correr menos e pensar mais.
Ainda existem pessoas de boa fé, de generosidade e humildade. Mas, é verdade também que existem hoje muito mais corruptos e corruptores que nem estão aí para a vida. O ritmo é frenético e alucinante da máquina que vai deletando o humano da tela. A Câmara fotográfica só dispara quando você rir, e o celular vai focalizar o exato local de onde se fala. Precisamos dar conta de que a criatura cada vez mais perde sua significância e não consegue sair desse labirinto que nós mesmos erguemos. Idolatramos vários deuses com os quais nos deleitamos como se fossem nossos salvadores. Construímos Sodomas e Gamorras que podem ser destruídas pela nossa própria ira.
Nenhum comentário:
Postar um comentário