Um dia, o visionário e místico roqueiro baiano imaginou o Dia em Que a Terra Parou. Ninguém saiu de casa para trabalhar porque não tinha ninguém para atender ou consumir. Depois de adquirir o que desejou, ele confessou que estava decepcionado e não queria ficar num apartamento com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar. É fim de mês, e as prestações vão chegando, mas o dinheiro não dá para pagar. É fim de mês, e as contas a nos azucrinar, como a mosca na sopa. Já imaginou o ano em que o mundo parou de consumir as bugigangas e os balangandãs criados pela tecnologia? Um ano sem supérfluos, sem os mitos superficiais, sem estilos e gostos massificados! Só o essencial para a vida.
No ano em que o consumo parou, ninguém mais comprou as breguices tecnológicas, nem se fez mais empréstimos para pagar empréstimos. Ninguém se importou com os novos lançamentos de celulares de mil funções, nem trocou de carro nas concessionárias. Ninguém foi mais às lojas adquirir vestidos de grifes, nem sapatos, calças e camisas. Ninguém trocou de geladeira, nem televisor e DVD de alta resolução. Nada de máquinas de lavar, batedeiras, liquidificadores, anéis, correntes, ou outras porcarias consumistas do capitalismo.
No ano em que o consumo parou, o homem também resolveu não mais procriar e desobedecer a Igreja. As siderúrgicas pararam seus fornos porque não tinha mais ninguém pra consumir o aço, pois a indústria automobilística também desligou sua linha de montagem. As fábricas petroquímicas também deixaram de operar. As petroleiras não quiseram mais perfurar, porque o consumo de combustível parou de aumentar. Só as unidades de alimentos continuaram a funcionar. As fumaças sumiram, e o dióxido de carbono deixou de violentar a camada de ozônio. A natureza começou a se renovar, e todos os rios correram livres para o mar, levando o cheiro das frondosas árvores.
Nesse ano, os bancos pararam de nos roubar, e os banqueiros foram arar a terra e trabalhar. As Bolsas e os mercados especulativos deixaram de fazer dinheiro parir dinheiro, papel parir papel. Os economistas param de prognosticar e chutar estatísticas. O cara do noteboock comprando e vendendo papéis podres na praia, foi embora. Ninguém mais falou de inadimplência, e ninguém mais freqüentou o prostíbulo orgístico do crédito. O deus consumo, ninguém mais o idolatrou. A mídia e a propaganda pararam de nos enganar. As máquinas das editoras aceleraram a produção do saber por que o conhecimento humano não podia parar.
Você deve estar matutando... Se o consumo parar, o desemprego será geral. Pense na vastidão da terra para plantar e as fabricas de alimentos para laborar. Imagine uma invasão pacífica dos campos e na formação de comunidades de produção. Fazendas movidas a energias alternativas, com a colheita de produtos orgânicos. Pense que as fronteiras podem se abrir e as muralhas desmoronar. A humanidade pode ser reduzida pela metade, e a paz pode reinar.
Se o consumismo parar é como tirar a cereja do capitalismo. Marx ressuscitar e o socialismo com a face humana se implantar. As guerras vão parar e a supremacia de um só não mais vai existir. Pense em mil coisas que podem acontecer e mudar. Pense sair da mesmice e outra via nos conduzir. Coloque sua cabeça para girar, seu cérebro para funcionar. Pense sair desse marasmo.
Pense que tudo é um sonho e que você pode sonhar. E se a terra também parar de rodar em torno de si e dos planetas? Você rolando perdido entre o universo de estrelas e outras galáxias? Hei! Está na hora de você acordar; levantar da cama; sair apressado; pegar um trânsito infernal; ler as manchetes de crimes, crises e escândalos; escutar a lengalenga das campanhas, azucrinando no seu ouvido para comprar besteiras; bater o ponto no computador; ouvir desaforo do patrão; comer um hambúrguer amassado no almoço; aturar o fiscal levar seu carro por falta de pagamento; e ainda ter seu nome no Serasa.
E o Natal que você vai ser obrigado a comprar presentes! Mandar cartão de Boas Festas; suportar a sogra lhe xingando; e a mulher lhe cobrando o champanhe, o vinho, o queijo e o peru! Pense no final do ano que você prometeu mudar e não mudou. Pense no próximo que você não sabe como vai ficar. É cara, você vai ter que encarar o sistema. Se preocupar com o desemprego, com as guerras, com a violência, com as mentiras dos políticos; se a vida tem sentido; com a existência; e por onde anda a tal de felicidade. A humanidade sempre está cometendo os mesmo erros. Não é legal! O pobre Sergipe insiste em ter a maior árvore de Natal do mundo!
Se ficar o bicho come, se fugir o bicho pega. A roda tem que continuar girando, cara! Não se preocupe, o governo vai lhe dar mais crédito para você consumir mais e mais; trabalhar e competir, passando por cima de quem estiver na sua frente; ficar endividado; negociar com as financeiras, lojas e bancos; se tornar nervoso e estressado; se empanturrar de remédios; acelerar sua velhice; e deixar um monte de dívidas quando partir para outra.
O trem está lotado e não se sabe o seu destino certo. Nele se vende de tudo, se mercantiliza, se troca, se joga e se trapaceia. A turma da Primeira Classe tem nojo dos candangos e retirantes. A solidariedade é uma farsa que só aparece nas catástrofes.
Os deuses nos soltam num labirinto. Difícil é sair dele. A inteligência financeira age como um software teleguiando os seres humanos e suas ações. O mais irônico nisso tudo é que vivemos isolados e alienados num mundo globalizado e cibernético. Como disse o Lama Padma Samtem, as escolas ensinam para o mercado, mas não ensinam para a felicidade.
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
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