domingo, 30 de novembro de 2008

DESSASTRE, CORRUPÇÃO E ARTE

O Estado de Santa Catarina (Blumenau, Itajaí, Ilhota) foi arrasado com as inundações e quedas de morros e das encostas. A mídia, mais uma vez, aproveitou, como sempre faz nas ocasiões de catástrofes e tragédias, para destilar seu veneno sensacionalista. Carregou nas tintas do exagero e do excesso, focando suas lentes e manchetes no sofrimento das pessoas e famílias que perderam seus entes queridos. O que mais conta é fazer planos demorados nos rostos cheios de lágrimas dos atingidos pelas enchentes. As câmaras focam semblantes sofridos, ultrapassando os limites da dignidade. Isso é usar o sofrimento alheio de forma rasteira. Em geral, as Tvs espetacularizaram e capricharam nas cenas bizarras como puderam.

Infelizmente, cada emissora, cada veículo de comunicação está mais preocupado com a audiência. A ordem é fazer de tudo para tentar roubar o espaço do outro. O Datena, da Band, ocupou com sua equipe, um helicóptero que estava ali para socorrer os sobreviventes, e gritava do alto: Que imagem fantástica. É uma falta de respeito, e o jornalismo virou um circo de baixa qualidade.

Os veículos esqueceram, com rara exceção do SBT, mesmo assim, rapidamente, de fazerem uma análise mais aprofundada sobre as verdadeiras causas de tanta revolta da natureza contra o homem que a agrediu bem antes. Nada está acontecendo por acaso. Toda ação tem uma reação.

A mídia deixou de falar que nas cidades atingidas pelas chuvas, 80% ou mais das casas situadas em morros e encostas ou vales foram construídas em áreas irregulares. A mídia deixou de apontar os responsáveis que permitiram as construções nesses locais. A mídia deixou de citar as agressões e depredações que aqueles morros e toda a natureza em redor daquelas cidades vêem sofrendo ao longo desses anos. A mídia deixou de focalizar a ganância das imobiliárias, a exploração predatória dos rios, os cortes feitos nas encostas, para erguer moradias feitas com licenças compradas e viciadas. A mídia deixou de fazer uma análise mais apurada sobre a ação criminosa ao meio ambiente que não suportou as chuvas.

Sinceramente, nunca vi, em toda minha vida, toneladas de terras deslizarem de morros em meio a florestas e matas virgens. Nunca vi um morro vir abaixo onde não tenha sofrido cortes, qualquer depredação do homem, nem tenha sido utilizado para construções de casas e prédios.
Quanto ao jornalismo sensacionalista e aproveitador da miséria dos outros, é preciso separar o ato de produzir informações com o de abusar e o de agredir a dignidade das pessoas. A mídia, infelizmente, vem deixando um rastro de vulgaridade nas coberturas de tragédias e catástrofes. O direito à liberdade de imprensa acaba quando não se tem ética e responsabilidade.




A CULTURA DA CORRUPÇÃO


Com tantos desmandos e atos de corrupção, nepotismos, corporativismos,
fisiologismos e outros “ismos” incorporados no nosso povo desde a descoberta do Brasil, a prática do levar vantagem em tudo, embutida na propina e nos subornos e chantagens, virou uma cultura popular aceita pelo contribuinte que não se incomoda mais com o que acontece.

Basta averiguarmos os números de pesquisas para chegarmos à triste conclusão de que o nosso povo, infelizmente, apóia a corrupção. Pesquisa feita pela Comissão de Ética Pública da Presidência da República constatou que 78,4% já descumpriram as leis, 50,3% empregariam um parente se fosse um político, ministro ou chefe de um Departamento ou Secretaria, 30% usariam cartões corporativos em gastos pessoais como comprar tapioca.

Só estes números bastam para termos a noção da podridão. Mas, existem mais coisas que deixam qualquer estrangeiro extasiado e de boca aberta. Numa matéria feita recentemente por um veículo de comunicação da Bahia, ficou comprovado que a maior parte da população aprova a prática da negociação do voto, isto é, as pessoas querem vender o seu voto. E mais: a maioria das pessoas entrevistadas concorda que o político deve e pode tirar proveito do cargo. Nas repartições públicas sempre entra “um por fora” para facilitar a solução de um problema. Juiz protege juiz que vende sentenças. O investigador vira investigado e perde o cargo. Filantropia vira “Pilantropia”, e por aí vai...

Isto me faz lembrar o Capital de Marx quando ele afirma que o sufrágio universal não é nenhum instrumento de reforma e mudança. A tese cai bem para o Brasil. Não vamos muito longe. As eleições passadas, isto é, há um mês, nos deram um retrato fiel de manipulação, de compra de votos, abusos econômicos e processados sendo eleitos, inclusive gente que já estava na cadeia. Não existe mais essa de vergonha na cara. A origem de tudo isso está na elite. O mais lamentável é que temos um presidente dito de esquerda, ou vindo de lá, que nada vê e ainda acoberta os escândalos, dando apóio, como fez com Renan Calheiros, Severino Cavalcanti, de Pernambuco, ao irmão de Ciro Gomes, no Ceará, ao Mensalão e tantos outros casos estarrecedores.


TODA OBRA TEM EMOÇÃO


Li um dia desses na mídia um comentário de um professor de Literatura, jornalista e poeta que me deixou inquieto. Para ele, Ruy Espinheira, que foi colega meu de Faculdade, a obra para ser uma arte tem que ter emoção e romantismo, excluindo aí as linguagens artísticas baseadas no realismo e que retratem fatos reais.

Confesso que não entendi o academicismo. Não importa o gênero ou estilo, em toda obra nela está contida sentimentos de emoção, mesmo que não seja considerada de boa qualidade. O indivíduo quando escreve, pinta, faz música ou teatro, faz com emoção. Todos nós somos artistas por natureza. O que difere uma das outras pessoas é o dom, o talento, a aptidão e a profissionalização para uma determinada expressão artística. O ato de dançar, contar uma piada, fazer uma saudação em público, já é uma arte em si. O que distingue é a dedicação a um ofício.

Os conceitos academicistas e prepotentes ficam por conta da subjetividade. Neste caso, por retratar a realidade e trabalhar com fatos reais do dia-a-dia, o jornalismo deixa de ser uma arte. O livro biográfico não é, então, uma arte? Não tem emoção uma matéria jornalística? É muito subjetivo e arriscado apontar que essa ou aquela outra obra não foi feita com emoção.

É só o cara ganhar alguma notoriedade, virar acadêmico teórico, pra querer impor seus conceitos aos outros. Ninguém faz nada sem emoção. Entendo que não se faz jornalismo, nem se é um bom jornalista, sem uma pintada de emoção. Não estou falando em inventar, ou fazer sensacionalismo. A frieza é anti-jornalística. A neutralidade é uma mentira, e só a isenção é uma meta a ser perseguida todos os dias.

As obras de escritores que se baseiam em fatos reais para a elaboração de um livro, mesmo que seja romance, não são consideradas como artes? Quando se faz uma obra, nela está se destilando emoção. Se formos adotar esse conceito, as obras de escritores famosos como Jorge Amado, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, entre outros, não têm nada de arte só porque seus trabalhos se baseiam em fatos reais. Só a ficção se salvaria.

No seu conceito não existiu e não existe nenhuma arte nos escritos, nas pinturas, no cinema, na dança, no teatro e nas canções dos russos da época de Stalin, principalmente, quando foi imposto o estilo “realismo socialista”. O cara era obrigado a escrever de acordo com a política do Comitê Central do Partido Comunista. Não é por isso que vamos dizer que tudo quanto foi feito na União Soviética, do período da Revolução em 1917 até o final dos anos 90, não foi arte. Foi o quê, então?

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