Resolvi fazer um texto quebrado, catando ali e acolá os fatos mais desprezíveis e contraditórios do nosso cenário brasileiro. Podem até alardear de que sou sombrio, pessimista e macabro, mas me sinto um lixo, esbofeteado todos os dias e violentado em meus direitos humanos mais sagrados de justiça e honradez que aprendi dos meus pais e na escola primária. Não estou aqui para vender palavras de esperança e sucesso como fazem os palestrantes mercantilistas de marcas e de auto-ajuda que propagam o orgulho de ser brasileiro.
Sem essa de que Deus é brasileiro e por aqui passou deixando belezas, riquezas variadas e o Pré-Sal do Petróleo. De tanto insistir e clamar, talvez Deus tenha nos dado às costas e nos deixado de lado para cuidar de outros povos mais determinados e que reagem prontamente contra a corrupção e as injustiças sociais. Deus disse: Faça por ti que te ajudarei. Acho que Ele desistiu de nós. Caso perdido. Sem essa de igualdade e de que as leis são iguais para todos. Igualdade não existe. É uma utopia. Basta de ilusões teóricas que nos fazem crer que temos direitos iguais.
Se o brasileiro tem um dinheiro para fazer sua farra com os amigos num bar, se tem a grana para comprar um abadá para o carnaval e um carrinho com prestações a perder de vista, pouco está importando com as falcatruas de juízes, advogados, banqueiros, empreiteiros e políticos safados. Que se dane o resto! Que se danem os dossiês e compras de sentenças! Que se danem as desigualdades! Que se danem as torturas e as mazelas!
Tenho asco e nojo quando vejo esses políticos e falsos líderes usarem o termo “Meu Povo” quando se dirigem às multidões para pedir votos e favores de seus interesses. Eles devem ter copiado do Antigo Testamento da Bíblia quando os profetas Moisés, Abraão e David se dirigiam á sua gente. Deus conversava com eles, mas não fala mais com os homens atuais que fazem conluios e maracutaias corporativas em proveito próprio.
A única saída que ainda me resta é cuspir palavras de fogo contra as malandragens brasileiras, já que não existem mais manifestações e protestos contra os escândalos. Mas, estão querendo inventar uma máquina para controlar os pensamentos. Precisamos de uma Revolução que nasça de baixo para cima. Sem essa de sociedade organizada. Isso não existe. É falácia. O que existe são organizações subsidiadas pelos homens que detém o poder. Muitas Organizações Não Governamentais (ONGs) de fachada são financiadas e controladas pelos governantes. Que engraçado!
Não vou citar todos os casos que nos deixam estupefatos porque teria que fazer um tratado de mais de mil páginas. Mesmo assim, não diria tudo. Um desrespeito e uma sacanagem contra o povo se sucedem e outros estupros sociais tomam lugar. Nesta semana que se passou, por exemplo, me chocou ver na imprensa baiana fotos de um advogado vendedor de sentenças judiciais sem algemas e, do outro lado, uma pobre mulher algemada e descalça, sendo escoltada por soldados truculentos com metralhadoras. Ele é da Cidade Jardim (bairro nobre) e a mulher da Engomadeira (miséria pura). É a nova norma do Supremo Tribunal Federal sobre o não uso de algemas para os ladrões de colarinho-branco. É uma pena porque aqueles figurinos de colocar o paletó nas mãos já estavam sendo copiados pelos estilistas e iam render muita grana.
Ainda sobre a venda de sentenças judiciais, o Tribunal de Justiça da Bahia acobertou os desembargadores e juízes culpados e, no maior cinismo (não teme reação do povo), concedeu hábeas corpus para os advogados presos. A que nível chega o descaramento! Para a população sobrou o bate-boca entre os desembargadores e a Promotoria Pública, com nomes de imbecil e insolente contra os defensores da causa justa.
Já que estamos no Judiciário, vamos ao caso dos grampos (escutas telefônicas). O Supremo resolveu controlar a concessão de autorizações e terminou anulando dois anos de investigações da Polícia Federal. Está em marcha uma ofensiva do Judiciário para cercear o trabalho da PF. No caso da prisão do banqueiro Daniel Dantas e de sua laia, não se fala mais nisso. Os investigadores passaram a ser investigados, e a banda que toca agora é a grampolândia. O povo não tem memória, ou não tem vergonha na cara?
Não se fala mais da decisão do Supremo Tribunal Federal que proibiu o emprego de parentes nos três poderes, o chamado nepotismo. Os presidentes das duas casas parlamentares (Câmara e Senado) fizeram alguns ensaios para que se cumprisse à ordem, mas depois se calaram. Algum senador demitiu um sobrinho. O prefeito do Rio Janeiro e o governador do Paraná usaram a malandragem de promover seus parentes a secretários. Tudo Dantes na Casa de Abrantes. É assim que funciona no Brasil. Nesse nosso país, tudo é igual a nada. No que deu o Mensalão, o Dossiê Político contra o governador José Serra, o Dossiê contra FHC e os Cartões Corporativos?
A Controladoria Geral da União (CGU) divulgou relatório na semana passada, fixando em R$3,3 bilhões os desvios de verbas dos ministérios, autarquias e convênios com Estados e Municípios. Aí veio a Polícia Federal e apontou R$15,58 bilhões para a conta da corrupção nos últimos oito anos. Acontece que estes números estão baixos demais. Os ministérios mais lesados são os da Educação e da Saúde. A safadeza está concentrada no superfaturamento de obras e da não conclusão das edificações. O governo não vê nada e nem consegue controlar, mas tem o maior índice de popularidade.
A punição contra os corruptos não é satisfatória graças à lentidão da Justiça. Na Bahia, desde 2005, cerca de 400 denúncias contra prefeituras foram encaminhadas à Justiça pelo Ministério Público, mas menos de 50 foram julgadas. Aqui em nossa casa na região sudoeste os prefeitos se revezam e quase todos eles com processos. Quando entram na prefeitura, um esculhamba com o outro e promete arrumar a casa. Agora vai começar tudo de novo depois das eleições.
Mas, todas as mazelas nada importam se a economia vai bem, com crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) de 6% no primeiro semestre. A construção civil vai bombando, com aumento de 9,5% no primeiro semestre, em relação ao mesmo período do ano passado. O PIB acumula riquezas de R$1,38 trilhões nos seis primeiros meses do ano. A classe média, segundo pesquisas, passou de 44% para 52% da população. Aleluia! Alegria, Alegria! Já somos crescidos e desenvolvidos. A classe média tem fascínio por marcas como nossos irmãos americanos dos Estados Unidos.
Mas, é bom que saibam que o mercado de trabalho no país mantém nível significativo de desigualdade, alto déficit de trabalho decente e grau de desemprego e precariedade preocupantes. O boom da economia não é suficiente para promover o desenvolvimento humano e a tal igualdade de edificar uma sociedade mais justa. Mesmo assim, temos uma sopra de letras que nos glorifica e nos anestesia, como as PPPs, PAC e outras. Agora, além do Pré-Sal, o governo sai com uma piada hilariante, bizarra e de humor negro. Diz que em 50 anos o Brasil vai ter 60 usinas nucleares. A que ponto nós chegamos, se há 20 anos a Usina Angra 3 está parada!.
Para finalizar, vamos falar um pouco de felicidade. Na visão antiga, este estado de espírito estava associado à sorte e ao destino. Este ideal inspirou a poesia de Homero. Só os deuses poderiam ser bem-aventurados, e os seres humanos, tristes e agonizantes. O quadro não parece com o nosso Brasil: a elite feliz de um lado (os deuses), e a miséria do outro. No iluminismo prevaleceu a idéia de que o ser humano tem direito à busca da felicidade. Na atualidade, a felicidade virou obsessão, ao ponto de medir o índice de cada país. Uma pesquisa divulgada pela Fundação Getúlio Vargas, feita em 132 países, mostrou que o índice de felicidade do país é maior do que sua renda permitiria. O Brasil está no 22º lugar entre os mais felizes, embora apenas em 52º lugar entre os maiôs ricos (renda per capita). Não é uma ironia, ou eu sou o maluco com minha lucidez?
Um comentário:
Estou arrepiada! Infelizmente assim é e assim será sempre!
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