sexta-feira, 15 de agosto de 2008

O MINISTRO AMARELOU

Mais de 20 anos se passaram e as feridas da ditadura, sangradas nos porões das torturas, continuam abertas. Para se falar delas, os governos e as instituições da sociedade, muitas delas dirigidas por vítimas do tempo de chumbo, fazem rodeios, se melindram e andam como se estivessem pisando em ovos. Como explicar todo esse temor pela reação dos militares? Seria trauma ou complexo? É como se a espada de Dâmocle ainda estivesse sendo apontada para nossas cabeças. Ou será que ainda está?

Basta se falar da anistia, que nos foi empurrada goela abaixo, na base do “é pegar ou larga”, ou da punição para os torturadores do regime, para deixar ouriçada as reservas e as ativas dos quartéis. E aí aparecem as ameaças e as sombras dos fantasmas do delegado Fleury e dos coronéis, para com cassetetes e armas em punho fazerem o frei, o estudante e o operário confessarem seus crimes. Estampam logo nas mentes as imagens dos choques elétricos, dos afogamentos, do arrancar de unhas com alicate, dos paus-de-arara e mais outras cenas de filmes de terror das solitárias e das prisões incomunicáveis.

Ainda que com medo, timidamente a democracia pede passagem, mas as feridas continuam abertas. O sangramento precisa ser estancado e cicatrizado para que ela possa seguir em frente e cumprir sua missão. Quando alguém tenta fechar as feridas, é impedido pelo governo, tantas vezes carimbado de esquerda, mas que teme o reboliço das casernas.

Foi só o ministro da Justiça, Tarso Genro, falar de revisão da Lei de Anistia do final dos anos 70, ou da punição dos torturadores de carteirinha, para as sombras fantasmagóricas dos castelos assombrados e malditos começarem a rondar nossas vidas nas praças, nas ruas, estabelecimentos e lares. Quase ninguém foi em socorro do ministro, que terminou amarelando, a não ser um grupo de advogados e juízes. Mais uma vez, não vai dar em nada.

Cadê nossas instituições, os estudantes, os pedantes acadêmicos intelectuais, os sindicatos e suas centrais? Estão se refestelando e se lambuzando no banquete do capitalismo consumista, individual, superficial e devorador. Outros se deslumbram nos cargos burocráticos e nas benesses do poder. Cadê a nossa mídia dita moralizadora e dona da verdade? Grande parte dela, como fez ao apoiar o regime ditatorial de 64, critica e condena a atitude do ministro, falando e escrevendo frases de impacto para confundir o público, especialmente os jovens que quase nada sabem sobre o que se passou.

Surgem argumentos contra as punições, desde os mais covardes comodistas e sem nexo, até os mais vazios, como a de que a ditadura é uma página virada que deve ser fechada e esquecida. Qualquer crítica é rebatida como revanchismo pela intocável casta militar. É como se fosse um caso mal resolvido. A ditadura será sempre uma história sem esclarecimentos? Aliás, boa parte dela foi destruída e queimada nos porões pelos próprios protagonistas, como fizeram recentemente na Base Aérea de Salvador. Sem punições, sem esclarecimentos. Arquivo incendiado é arquivo morto. Quem apanha nunca esquece.

Um outro argumento, este partindo dos militares, é a de que no caso de punições, também serão penalizados aqueles que fizeram parte da luta armada e cometeram atos “terroristas”. Ora, os que lutaram pela libertação já foram punidos com a morte ou com a tortura. Uma coisa é você matar em combate e outra é torturar a pessoa depois de presa. Assim fizeram com milhares de brasileiros, inclusive com muita gente que não fazia parte da luta armada, como Vladimir Herzog, Rubens Paiva e tantos outros como os freis dominicanos.

Tortura não é crime político e sim crime comum, passível de punição em qualquer parte do mundo como estão fazendo na Argentina, Chile e Uruguai. No Brasil se vira a cara e se prossegue em frente como se nada houvesse acontecido. O reboliço e a reação do militar até é concebível, mas o que causa repugnância e vergonha é o silêncio do civil. Como dizia Martin Lutter King, não é tanto a corrupção, a falta de ética e os desvios que nos preocupa, mas sim, o silêncio dos bons.
O brasileiro sempre se contentou com o pouco e se conforma sem reclamar. Olha o exemplo da participação dos nossos atletas nas Olimpíadas(quase 300) e até agora só três medalhas de bronze. Mesmo assim vibram como se fosse uma glória. O oitavo ou o penúltimo lugar é motivo de festa. A Rede Globo faz um esforço danado para dar ênfase ao desempenho acanhado dos brasileiros. Fica caçando um gancho(jargão jornalístico) aqui e acolá para abrir mais espaço. Muita quantidade e pouca qualidade. Também, o presidente do COB é vitalício e nada muda. Mas, isso é outro assunto.

Voltando ao nosso, o governo de FHC e agora o de Lula, intitulados de esquerda, preferem sepultar a história com polpudas indenizações às vítimas, muitas das quais equivocadas, que abrir uma frente de condenações aos repressores. É como fechar os olhos e abafar os gemidos de uma era de terror.

Enquanto isso, vai se perdendo com o tempo a memória de um passado triste pouco conhecido das novas gerações. Boa parte dos arquivos e documentos foram destruídos e rasgados. Tocaram fogo em papéis para apagar os crimes dos carniceiros, como se uma ideologia e uma luta pela liberdade pudessem ser incinerados. O que não dá para engolir é esse receio cuidadoso em não melindrar as corporações militares. Tudo é feito para não se rasgar o tecido do sistema.

A mídia, por exemplo, fez um alarde e criou-se suspense enorme sobre o que os militares da reserva iriam falar sobre o depoimento do ministro da Justiça com relação aos crimes de tortura. A impressão que se tem é que a qualquer hora podemos voltar ao pesadelo. Depois o governo recua de tocar o dedo na ferida aberta, e só faltou pedir desculpas. Mais uma vez, a discussão é encerrada, mas no futuro a história haverá de apontar os culpados.

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