quarta-feira, 20 de agosto de 2008

CAÇA AO ELEITOR

Começou a temporada oficial de caça ao eleitor nas emissoras de rádio e televisão através do Programa Eleitoral Gratuito que de gratuito não tem nada. Tudo é pago pelo contribuinte. As empresas de comunicação descontam tudo do Imposto de Renda, e sem intermediação dos 20% das agências de publicidade.



Maquiados pelos marqueteiros de plantão, seguindo um padrão de estética, os candidatos viram mágicos de circo. Com suas apresentações, eles conseguem engolir fogo e espada, entortam garfos, amansam leões e até hipnotizam serpentes venenosas.



Os programas de computação dão o toque de limpeza, sem rugas, sem marcas e saem stress. Eles saem novinhos do forno para as prateleiras, com embalagens atrativas para você levar. Mesmo assim, difícil se evitar o terror e as cenas hilariantes saídas das câmaras, com nomes esquisitos e propostas mirabolantes.



Nessa temporada, é muito comum os políticos aparecerem segurando criancinhas remelentas, ou comendo uma buxada de bode, uma rabada ou um mocotó num boteco da esquina, de preferência, acompanhados de uma cachacinha. Dão risadas e prometem transformar gafanhoto em avião, prato vazio em cheio de alimento.



Cuidado que muitos desses produtos são pirateados e falsificados, com prazos de validade vencida! Mas, infelizmente, o povo brasileiro gosta mesmo de ser enganado e sempre está levando gato por lebre. O barato pode custar muito caro depois e você ficar com um zunido danado na cabeça.



Nas pesquisas de opinião, os eleitores sempre dizem detestar o horário eleitoral, mas o irônico e contraditório é que na mesma verificação apontam que os programas servem de instrumento para decisão dos votos. Não se sabe em que confiar, e quem afirma a verdade.



Pelo menos nas pesquisas, cerca de 80% declaram perda de confiabilidade nos políticos, e os comentários são sempre de que eles são corruptos (com exceções) e passam a mão nos cofres públicos. No entanto, os eleitores, nem todos, demonstram interesses particulares e simpatizam com o candidato assistencialista e até com aqueles que distribuem dinheiro e bens materiais em troca do voto.



Os partidos estão tão desmoralizados - viraram agrupamentos e clubes de donos - que o candidato só cita o nome da sua legenda por força da obrigação. Por sua vez, o eleitor, no geral, não vota no partido, mas na pessoa do candidato.



Está aí mais outra triste contradição do nosso painel político onde os eleitores são os maiores culpados. Mas, voltando à nossa temporada de caça ao voto no rádio e na televisão, no início eles apresentam suas origens pobres e os sacrifícios que fizeram para vencer. São bonzinhos e dóceis, fazendo promessas impossíveis. Depois, lá pelos meados de setembro, a coisa esquenta e descamba para a baixaria e o bate-boca pessoal. Aí, aparece a face da imoralidade, da falta de ética e do “tudo ou nada”.



No geral, os programas começam em português e depois a linguagem fica embolada, mais parecendo com hebraico. Há várias eleições, os marqueteiros obedecem ao mesmo padrão e cada um tem medo de se arriscar e perder seu emprego, ou o mercado. O programa dos ricos, que têm mais dinheiro, é uma beleza, cheio de fantasias e efeitos especiais. O dos pobres, uma tristeza, sem forma e sem conteúdo.



Ensinam os marqueteiros que a propaganda eleitoral decisiva não é o horário em bloco, mas as inserções comerciais distribuídas durante os 40 dias da programação. No período, alguns viram fantasmas.



Por falar nisso, por mais que o Tribunal Superior Eleitoral tenha tentado equilibrar as forças, restringindo a divulgação de certas peças de propaganda, para não prevalecer quem tem mais recursos, na prática, continua ditando quem tem mais bala na agulha.



Pode ser uma chatice, mas é no programa “gratuito” que os políticos apostam suas fichas, vendendo ilusões para os chatos que ficam diante dos televisores. Se a campanha partir para o bate-boca, eles recorrem à Justiça Eleitoral, e surgem até as torcidas. A exposição do político pode decidir uma eleição, mas é preciso ter credibilidade. A temporada também pode servir para separar o joio do trigo.

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