sábado, 7 de junho de 2008

ESCRITORES SEM EDITORAS

A nossa cultura de hoje se resume num amontoado de acadêmicos vaidosamente considerados intelectuais, falando uma linguagem entre si e que nem eles mesmos se entendem. Reúnem-se em academias fechadas para discutir o sexo dos anjos, formas, estilos e teorias literárias de autores consagrados, sem uma auto-reflexão sobre o nosso meio literário que vive em decadência. Em se falando especificamente de literatura, precisamos de discussões práticas que incentivem e ajudem nossos escritores sem editoras a elaborar, divulgar e distribuir suas obras. Não podemos ficar dependentes dos editais e dos parcos recursos do governo, especialmente a literatura que é a prima pobre das expressões artísticas.

Como nos setores produtivos da economia que se organizam em grupos para se fortalecer, os escritores precisam se conscientizar; colocar os pés no chão e se unir em cooperativas para produzir suas obras e comercializá-las, no bom sentido. Precisamos deixar de lado essa vaidade de intelectuais, que não enche barriga de ninguém, e nos tocar de que também somos operários da escrita e das idéias. Na verdade, precisamos de editoras para publicar nossos trabalhos. E, somente os escritores unidos podem concretizar tal empreendimento, e sairmos desse marasmo em que vivemos. Como se trata de um investimento de risco, empresário nenhum vai criar uma editora. Somos nós que temos que decidir.

Na verdade, somos escritores sem editoras e, para mostrar nossa obra para o público, temos que meter a mão no bolso, com altos prejuízos, isso para quem tem condições financeiras. Mesmo assim, não somos reconhecidos pela sociedade, e os talentos ficam mofando nas gavetas. Ao invés de ficarmos discutindo teorias literárias, devíamos estar procurando uma forma de nos ajudar e, com isso, promover a cultura, disseminando e estimulando a literatura, especialmente entre a juventude. Estou falando de prática no lugar de teorias. A idéia é criar um Fundo conjunto, e daí uma editora para imprimir escritores, bem como resgatar autores importantes da nossa região.

Mas, se preferirmos ficar esperando pelos editais, no dia 10 de junho, a Fundação Pedro Calmon, através da Secretaria de Cultura do Estado, está lançando três editais, totalizando R$422 mil. Os editais visam a edição de obras inéditas, contemplando romances, contos, poesia, cordel e infanto-juvenil. Para o primeiro edital, “Pedro Calmon”, serão destinados R$250 mil. O segundo, é o “Lúcia Alcoforado”, de apoio à edição de folhetos de cordel, e conta com R$22 mil. O terceiro edital é de apoio às editoras baianas para edição de livros de autores baianos, com montante de R$10 mil, para distribuir entre oito projetos.

No entanto, o esforço coletivo é tudo para se abrir espaço no panorama literário. É difícil fazer livros sem editoras. Na Bahia, esse problema é antigo, e os caminhos para se publicar um livro são árduos. Mesmo com sua decantada efervescência cultural, o Estado não conta com uma editora comercial de ponta que produza, distribua e venda as publicações. É decepcionante como a Bahia não tenha conseguido desenvolver seu parque editorial. Aqui só temos editoras institucionais.

Ate hoje, as pessoas amantes das letras são obrigadas a tomar suas próprias iniciativas, como a Quarteto Editora, a Kalango e Edições K. Esse número dá idéia da demanda reprimida que há na Bahia. Além do mais, se visa muito o lucro com publicações de obras comerciais, de espiritualidade e de auto-ajuda. Por isso mesmo, é que temos que nos unir em cooperativas e formar nosso próprio negócio, visando valorizar e prestigiar nossos autores locais.

Talvez por vaidade, para massagearmos nosso ego, ficamos estacionados no campo da cultura erudita, tentando decifrar uma língua que não é nossa. Damos às costas para a cultura popular, para nossas tradições e costumes. Em Vitória da Conquista e região, por exemplo, as academias de letras, como as similares em todo país, nada mais são que clubes fechados que se reúnem para exibições do saber onde cada um procura mostrar seus conhecimentos mais que o outro.

Pouco adianta o aprender e o produzir se não for compartilhado com a comunidade. É o único caminho para a realização individual. E isso só é possível quando sua obra e seu trabalho chegam aos outros. No caso específico dos escritores, o limite está na individualidade, na falta de uma união entre os autores para fazer acontecer. Não temos uma representação forte do gênero literário para fazer crescer. Somos escritores sem editoras, tentando ser independentes, num esforço tremendo para divulgar uma obra que logo cai no esquecimento.

Nenhum comentário: