Por que os eventos mais importantes do calendário de festas de Vitória da Conquista estão decaindo a cada ano que passa? Alguém tem uma explicação mais plausível e sensata? Os promotores podem até discordar porque quando estão do outro lado preferem negar a lógica e a crítica racional. Mas, vamos analisar com cuidado à luz da observação e da razão. A explicação da decadência está na usura, na ganância, na falta de visão social e na incompetência daqueles que detém o poder econômico e político do município.
Esbravejem como quiserem e podem até atirar suas pedras venenosas e mortíferas, mas a Exposição Agropecuária e a Micareta perderam suas grandezas estrelares, e as luzes da inclusão social se apagaram. Acenderam os holofotes da exclusão. O São João é um comentário á parte porque nunca deram a devida importância que merece no conceito e no cenário popular em se tratando de uma festa onde todos participam, desde o mais rico ao mais pobre, do jovem ao idoso, sem cor e discriminação racial.
Com relação à Exposição Agropecuária, só se fala em faturamento de milhões, com lucros se superando a cada ano. Por sua vez, a mídia, na sua maior parte, não mostra o outro lado da exclusão, a começar pela cobrança de R$3,00 para entrar no Parque. Não ouve as reclamações, o outro lado. Nem tudo é encanto e magia. Lá dentro é tudo caro, e os preços nos bares e restaurantes são proibitivos para as famílias mais pobres. Aliás, milhares delas deixaram de levar seus filhos por falta de condições financeiras para tanto. Quem chegou a freqüentar o evento saiu comentando sobre os custos e reclamando da exploração desenfreada. Pais se queixaram dos preços pagos no Parque de Diversão, com tempo de duração dos brinquedos em movimento cada vez mais rápido. De um modo geral, a imprensa não ouviu essas queixas. Mas, ela não passou batida sem um motivo dos patrões. Tudo gira em torno do capital. Onde estão o compromisso para com o público e a democratização dos meios de comunicação?
Na ganância de ganhar mais clientes, na parte baixa do Parque, nos fundos que dá para a Faculdade da FTC, as barracas de comidas e bebidas estenderam suas mesas e cadeiras bem próximas dos locais reservados aos animais, reduzindo também a área de circulação das pessoas. O rodeio, por questão técnica ou de segurança, teve sua área reduzida, e só um grupo de pessoas felizardas dos camarotes pode ver o espetáculo dos peões. Quem não teve acesso aos camarotes foi obrigado se esticar de pé na tentativa de pegar algum detalhe. Imagine como ficaram os idosos e as crianças que tentaram ver o rodeio. Bem, como a área foi restrita e ficou sem visão para o recinto, o único jeito é a pessoa, no próximo ano, levar um tamborete bem alto de casa para acompanhar o rodeio, mesmo após ter pagado R$3,00 de ingresso.
A Cooperativa Mista Agropecuária de Vitória da Conquista(Coopmac) não pode pensar só em números, mas também ter uma visão social, no sentido de contribuir mais, visando proporcionar o acesso das famílias de menor poder aquisitivo. A diretoria afirma que houve aumento de público, mas não cita números. Pode até ter ocorrido esse aumento, mas poderia ter sido maior se não houvesse tanta ganância e exclusão. Já ouvi de pecuaristas o argumento de que o evento é montado para os expositores, dando a entender de que a categoria não tem nada a ver os visitantes que não são do ramo. Se é assim, então por que não experimenta realizar uma exposição fechada, sem a presença do público? Vamos ver no que vai resultar.
Outra festa que vem perdendo seus objetivos é a Micareta de Conquista, que já foi uma das maiores da Bahia no início dos anos 90. Modificaram tanto ao longo dos anos que agora, de 4 a 6 de abril, vai ser fechada dentro do Parque de Exposições, sob alegação de oferecer mais segurança. Sabemos que o motivo não é esse, e segurança é obrigação do Estado, mesmo que seja aberta nas ruas e avenidas. A Micareta foi sendo reduzida nos últimos anos até virar uma calça-curta. Antes o circuito começava na frente do Centro de Cultura, passando pela Praça do Gil, avenida Otávio Santos, Bartolomeu de Gusmão, com retorno pela Ascendino Melo e, encerrando, na praça do Gil. Depois excluíram o circuito da Bartolomeu, com dispersão no final da Ascendino Melo. Mais na frente inventaram um novo circuito, saindo da Rosa Cruz, desfilando pela avenida Jorge Teixeira(Sacramentinas), fazendo o retorno no Parque de Exposições e seguindo pela avenida Siqueira Campos até as imediações da praça Guadalajara. Neste ano vai ser dentro do Parque de Exposições e no Bosque da Paquera. Qual vai ser o novo formato? No Estádio Lomanto Júnior? E Como fica a participação do povo da Zona Oeste? Onde fica a inclusão social? Para anunciar a limitação cada vez maior da festa, a imprensa foi convocada para uma coletiva, e o prefeito fez um esforço danado para explicar as mudanças. Ah! Daniela Mercury, Tatau e outras atrações vão cantar nos palcos. Vai ser um festival de axé music.
Por fim, o São João, uma festa tão popular e tradicional, nunca foi tratada pelos governantes de Vitória da Conquista como deveria ser. Para começar, não temos atrações de grande peso como em outras cidades da região; a programação é pobre e limitada, sempre concentrada num barracão. Pela posição logística da cidade e seu porte no cenário baiano e nacional, o São João de Vitória da Conquista deveria ser o melhor, senão um dos melhores do Brasil como é em Campina Grande e Caruaru. É uma festa que rende mais que a Micareta, tanto em termos econômicos e financeiros como sociais. Sem fazer discriminações ideológicas de qualquer pensamento político-partidário, filosófico ou sociológico, os responsáveis pelos nossos eventos devem fazer uma reflexão e tratar as nossas festas com mais carinho, visando oferecer mais condições e espaços para todo povo participar.
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