Saudades dos tempos quando todos participavam e brincavam alegremente soltos com os amigos da Praça da Sé ao Campo Grande. Na descida ou na subida, uma parada estratégica na Praça Castro Alves para reverenciar o poeta que tanto clamou e protestou contra as desigualdades sociais; e amou suas musas inspiradoras. Bons tempos quando se podia sair atrás do Trio Elétrico Dodô e Osmar; comer um mingau na barraca de Vavá; e ver as bandas passarem. No fim da noite, lá pela madrugada, você se sentia ter participado por inteiro da festa, sem ser espremido pelos cordeiros dos blocos e empurrado para fora do circuito como um cão fedorento.
Hoje, a festa é para poucos, pois a insegurança é imensa e só ficamos à vontade dentro de um bloco. É a expressão, como de tantos outras, de um internauta para o jornal A Tarde. Este internauta é do Ceará e disse ser frustrante ter saído de tão longe para ficar preso dentro de um bloco. E tem gente que acha que carnaval de Salvador é pura magia, resume outro. “Só se for do alto dos trios e dos camarotes, porque no solo há muita miséria, desigualdade e falta de educação”, responde outro leitor. Para o internauta: a massa continua entre as cordas, onde a elite desfila sem ser incomodada. Outros falam da falta de higiene, e da cultura e tradição, esquecidos pelos organizadores e as autoridades competentes.
É lamentável tudo isso que está e vem ocorrendo, mas a mídia abre a boca para dizer que o Carnaval de Salvador é o maior e o melhor do planeta. Só se for para os mesmos magnatas da burguesia que por ironia ganham os tubos em dinheiro com uma festa mantida pelo povo contribuinte. É isso mesmo, os governos estadual e municipal(nosso dinheiro) investiram mais de R$50 milhões para deixar o povo de fora e ser escrava deles, como os cordeiros que protegem os ricos. A realidade é revoltante e merece muita repulsa.
O meu amigo e colega jornalista Emiliano José reconhece que o carnaval está subordinado à lógica da mercadoria dentro dessa evolução do capitalismo brasileiro. O carnaval transformou-se num vultoso negócio, movimentando quase um bilhão de reais. Para Emiliano, é uma constatação catastrófica, esse modelo de privilegiar o negócio, conferindo às empresas o papel fundamental. Reconhece que o modelo marginaliza a maior parte da população, e enfoca a questão do racismo. Não vejo por este lado racista, tendo em vista que são os pobres em geral que ficam do lado de fora das cordas, ou seja, negros, mestiços e brancos. Não estou vendo avanços como afirma Emiliano, ao apontar as condições de trabalho dos cordeiros que melhoraram. Isso não significa praticamente nada diante de um mar de discriminação e concentração de rendas. Essa lógica fria do mercado é que tem que ser mudada, e conferir espaços aos foliões que não podem entrar nos blocos, Aliás, tem que acabar com as cordas que funcionam como muralhas do apartheid. As ruas têm que ser do povo como o céu é do avião, como já pronunciou o poeta.
PROIBIÇÃO ALCOÓLICA
Outra coisa séria é a violência no trânsito. Aproveitando o período carnavalesco, o governo federal baixou uma séria de medidas, dentre elas a proibição da venda de bebidas alcoólicas na beira das estradas, bem como a redução de 0,6 para 0,3 grama do nível do álcool no sangue do motorista. No pacote está também contido o aumento do valor das multas, passando as infrações de médias para graves, e assim por diante.
Primeiro, a proibição da venda de bebidas alcoólicas nas estradas é inócua, paliativa, e não evita que o indivíduo entre na cidade e tome umas e outras. Fosse assim, os usuários de drogas já teriam deixado de ser consumistas. Proibição não resolve o problema. Só penaliza os donos de bares e restaurantes. Não é por aí.
Bem ridícula ainda é a redução do nível alcoólico. Muita gente que bebe, nem dá conta disso. A questão maior no Brasil é a impunidade. Como sempre, os infratores endinheirados apelam na Justiça e ficam livres das punições. O que tem que acabar no Brasil é a impunidade e se criar leis sem atalhos para os poderosos do dinheiro que constituem advogados, pagam as multas e saem dando risadas.
O governo proíbe bebidas alcoólicas nas estradas, mas entra em contradição quando se acovarda em não proibir as propagandas luxuosas de mulheres saradas, anunciando cervejas. O sexo feminino se tornou objeto de incentivo para que as pessoas, especialmente os jovens, encham a cara nas mesas dos bares. Mas, aí entram a mídia, as empresas de propagandas, as indústrias fabricantes e o governo que não querem perder seus polpudos faturamentos. Nesse país, de forma imediata, mais agressiva e hedionda, o álcool mata mais que o cigarro. No entanto, souberam proibir a propaganda de cigarro, e continuam perseguindo os fumantes, mais parecendo com a inquisição da Igreja na idade média. O Brasil, na verdade, é uma fonte de contradições sem fim onde nunca se chega ao fundo do poço.
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