quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

UMA EMPRESA NO VERMELHO

Todo ano é a mesma coisa; as críticas partem de todos os lados, mas o carnaval de Salvador continua elitista e concentrador de rendas para os donos de hotéis, de trios, blocos e camarotes. O folião “pipoca” que se dane, espremido entre os grã-finos e vítima das botas e dos cassetetes dos polícias que descarregam suas frustrações no primeiro que encontra.

Mas, não é somente isso, há muitos anos que o carnaval é uma empresa que funciona no vermelho. Para a Prefeitura Municipal, a custo da folia está estimado em R$25 milhões. Já o Estado tem gastos de R$30 milhões para bancar a infra-estrutura com saúde, segurança e outros repasses de recursos. A Prefeitura corre atrás dos patrocinadores, mas a arrecadação não chega a 50% das despesas.

Pior ainda: quem mais paga impostos são os barraqueiros que ganham uns trocados, enquanto os donos que comandam a folia fazem seus malabarismos e sonegam. As estatísticas sobre a presença de turistas são mentirosas. No ano passado falaram em 800 mil visitantes, mas o governo atual constatou metade desse número em Salvador. Enquanto falam em empatar receita e despesas, a parte cara da festa fica com o Estado e a Prefeitura.

Para um Estado pobre como o nosso, com os piores índices sociais e de educação, é uma vergonha que seja assim. É certo que o povo também precisa de diversão, mas quando se vive com dignidade. Não existe dinheiro para projetos nas áreas da saúde da educação, mas quando se aproxima o carnaval, a verba aparece. A Secretaria da Cultura, por exemplo, já soltou cerca de R$3 milhões para os blocos afros, e ainda se fala em democratização dos recursos entre capital e interior.

Mais lamentável é que os benefícios financeiros são concentrados em segmentos mais elitizados do mercado de blocos, camarotes e hotelaria. Segundo estudos, os dados relativos ao ICMS e ao ISS mostram que o carnaval gera impacto direto modesto sobre a receita tributária. Para se ter uma idéia mais precisa, em 2007, a despesa pública com a festa foi de R$49 milhões, contra cerca de R$6 milhões de receita. E quando falo de despesa pública, estamos nos referindo em dinheiro do contribuinte, dinheiro nosso.

Segundo especialistas, o carnaval afro-elétrico-empresarial é regido por um mercado oligopolizado de uma meia dúzia de entidades, com excesso de cargas nos circuitos físicos da festa, e conseqüente desequilíbrio entre espaço público(pipocas) e espaço privado(blocos), sem contar as limitações à expressão de diversidades. Tudo isso significa que o contribuinte paga para a elite se esbaldar, com apresentações de baixo nível do axé music.

Querem mais aberrações? Então vamos lá. O Comando da Aeronáutica(Base Aérea de Salvador) abriu edital para o uso de uma área privilegiada no Circuito Dodô(Barra –Ondina), próximo ao Clube espanhol. A única obrigação é que o vencedor deve fornecer 150 cortesias nos camarotes, com direito a todos os serviços de mordomias(bebidas, comidas, etc). É, ou não é uma amoralidade e abuso administrativo?

Além de ser uma mesmice de artistas que continuam mamando nas tetas do Governo, ou do povo; que sempre são idolatrados pela mídia(muitos deles nem moram em Salvador), o carnaval quando passa, deixa os ricos mais ricos e os pobres mais pobres. É que muitos gastam tudo que têm e ainda fazem dívidas para não ficarem de fora da folia dos burgueses. Tem gente que deixa a casa sem alimentos em troca do aperto nos corredores apertados dos blocos e dos trios. A descaracterização da festa não importa nem um pouco aos exploradores que escravizam a mão-de-obra dos cordeiros e vendedores. E assim é o nosso sistema devorador de criaturas que são escravas de uma cultura falida e degradante.

Os artistas famosos quando vão para as TVs, rádios e jornais falam um bocado de baboseiras a respeito da festa, das suas futilidades culturais e da grandiosidade de Salvador, que deixam as pessoas orgulhosas e envaidecidas. Só que eles sempre estão enchendo seus bolsos de grana e nunca se ouviu falar de terem feito doações ou ajudado entidades beneficentes. Estão ricos, mas não colaboram com as entidades que cuidam da assistência social às minorias excluídas da sociedade. Só entram com a lábia e a teoria.

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