terça-feira, 29 de janeiro de 2008

UM CARNAVAL IMORAL

Ivete Sangalo convoca uma entrevista coletiva para dizer á imprensa que vai sair seminua no carnaval de Salvador. Durval Lelis faz o seu circo para falar que vai sair com trajes de cawbóy americano, mais precisamente de cawboylino. A mídia dá destaque e ocupa seu tempo e espaço com os artistas endinheirados e incensados. Oh! quantas besteiras e futilidades diante de tantos assuntos importantes nacionais para serem divulgados, discutidos e informados para a opinião pública! Mas, paciência, o nosso povo foi treinado para engolir as baboseiras e achar tudo divertido e importante.

É o carnaval de Salvador, cheio de folclores e “folcloristas” como a indicação de Clarindo, o magro, para ser rei Momo. Mas, o pior tinha que vir. Nesta terça-feira(dia 29/01), as redes de TVs estamparam as cenas degradantes de pessoas socialmente pobres se matando aos empurrões, carregando mantimentos às costas para adquirir um ingresso para ver as celebridades do carnaval nas arquibancadas. Achei tudo deprimente e como ainda é tão revelador nos tempos atuais, o poder dos senhores de engenhos sobre os escravos. Como o povo continua na servidão e sendo tratado com resto!

Por que os organizadores do carnaval não colocaram as celebridades e os políticos para levarem os produtos e trocarem pelos seus acentos confortáveis nos lugares reservados a eles? Quer dizer que aqui em nossa terra, os pobres são obrigados a repartir o pão com seus semelhantes, também pobres e miseráveis. A filantropia agora é feita pelas camadas mais baixas. Muita gente tirou seu alimento de casa para conseguir um ingresso e ver os riquinhos desfilarem na avenida. Na fúria, os pobres coitados arrebentaram portões e, por pouco, não ocorreu uma tragédia com mortes. Se isso acontecesse, ninguém era responsável.

Que carnaval é esse de tantas contradições, absurdos e maluquices? A mídia se omite porque ela está sendo beneficiada e tem seus interesses na festa. Sobre o assunto, o cantor e compositor Walter Queiroz fez o seguinte comentário: Diante da acomodação de todos os segmentos da sociedade quanto a esse modelo atual de Carnaval – imoral, ilegal e perverso – somente uma medida de grande alcance, como uma ação popular, será capaz de sacudir esse sistema. Não espere por isso porque o povo foi tragado pela propaganda enganosa.

Para o Estado, que utiliza o dinheiro do contribuinte, o carnaval é uma prioridade absoluta, tanto que a Secretaria da Cultura está desembolsando R$5 milhões para os blocos e artistas alternativos que estão reclamando do cachê. Essa verba é maior que a do ano passado. Cada bloco está recebendo entre R$15 a R$100 mil. Para a educação e a cultura, não existe e nunca existiu prioridade absoluta neste país por parte dos governantes. Cadê, sr. Secretário, a tão falada democratização dos recursos para o interior? As conferências de cultura passaram e tudo continua no mesmo de sempre.

O carnaval de Salvador é uma vergonha em termos de elitismo, boçalidade das celebridades artísticas e políticas e, acima de tudo, de futilidades. É onde existe mais músicas com letras de baixo nível por metro quadrado, num espaço cada vez mais elitizado que empurra os pobres para os muros e esquinas fedorentas de urinas. As avenidas são ocupadas pelos senhores capitalistas donos do poder. Diferente de Recife que ainda apresenta uma grande diversidade cultural popular durante seu carnaval, Salvador é só uma lembrança amarga da festa que existiu há 30 anos.

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