quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS

Não há nada que dê mais repercussão internacional do que mandar os Estados Unidos e seu presidente para o inferno, e dizer que o Busch é o diabo. Mas, Lula não chega a esse ponto. Prefere chamá-lo de amigo e apoiar os rompantes de Hugo Chaves, da Venezuela. Nada de semelhança nisso. Lula teme as bravatas de Chaves e elogia ditaduras africanas. Melhor não ferroar o touro.


Chaves tem formação militar; é disciplinado e tem vocação para ditador, tentando desenterrar o socialismo-totalitário. Ele se aproxima de Cuba e vira amigo de Fidel Castro para irritar os EUA e ter mais notoriedade. Nunca foi esquerdista e eliminaria Che Guevara, se vivo fosse, caso representasse ameaça ao seu poder.


Lula, um metalúrgico, ex-sindicalista, que não gostava de sindicato, nem de política partidária, tornou-se presidente da República. Sua ideologia maior era a boemia dos botequins e bater uma pelada com os companheiros. Convidado pelo irmão, logo tomou gosto pelo sindicalismo e fez sucesso com suas parábolas. Descobriu o dom da negociação e da desenvoltura com as palavras. Nunca gostou de estudar, nem tampouco ler Marx ou Engls. Virou atração como conciliador falando a linguagem do povo, que se encantava e ainda se encanta com suas metáforas.

Os intelectuais acadêmicos, combatentes da ditadura, muitos deles socialistas de esquerda no discurso, mas carregando sempre o manto do capitalismo, viram em Lula a maior representação para propagar as reformas. Beberam da fonte de Maquiavel. Como Chaves, nunca foi esquerdista e comunista. Mas, selaram um cavalo, e deram o PT a Lula, para atrair multidões, com propósitos de esperanças, sem medo.

Diferente de Chaves, nunca teve vocação para ditador, mas ensinaram a ele que os meios justificam os fins para se manter o poder. Condenava o puro assistencialismo de esmolas, mas depois se agarrou a ele como plataforma de sua política. Diferente de Chaves, agrada a todos, do imperialismo americano dos Estados Unidos, ao ditador; do banqueiro ao mendigo. Ao falar, não é mala como o Chaves que recebeu um pito do rei para que ficasse calado.

Os discursos de Lula tocam as populações mais pobres que habitam o chão árido, sem discernimento sobre os fatos. Grande parte dessa gente nem sabe ler televisão, quanto mais um jornal ou livro, para interpretar as intenções e penetrar no ideológico das manipulações políticas. Como o Chaves, o Lula também tem desejo de se perpetuar no poder, mas com outros métodos. Sem Lula, os homens dos cargos não vêem outro representante á sua altura e temem perder seus postos.

Chaves foi mais decisivo nas mudanças, embora também não dispense o tempero do assistencialismo. Peitou mais a burguesia que o nosso Lula, que não chegou a ser um ciclone. Chaves tenta fazer sua revolução bolivariana na base da força, tomando o Congresso e o Judiciário através de referendos e plebiscitos. Seu socialismo-totalitário promete habitação e comida para todos; nacionalizar a propriedade privada; e repartir as terras na base coletivização soviética. Sua revolução atravessa fronteiras e finca domínios de suas idéias na Bolívia, Equador e Nicarágua. Se for para criticar o diabo dos EUA, não importa misturar Cuba com Irã, Rússia e Coréia do Norte na mesma panela. O homem faz pacto até com Kadaf, da Líbia.

Lula adota uma revolução light de agrado a todos, embora diga que o povo excluído seja sua razão de viver e de governar. Tem como Chaves, uma linguagem popular cheia de metáforas, embora aqui as reformas de base e profundas propagadas pelo seu partido, tenham ficado no caminho da perdição das mutreitas. Sua política reza na mesma cartilha do outro FHC, com alguns avanços, como a criação de secretarias e ministérios com nomes pomposos que impressionam os mais teóricos socialistas tupiniquins.

No fundo, é uma cartilha neoliberal a lá brazuca. A reforma agrária empacou e nada de mudanças radicais pregadas antes pelos intelectuais do PT. Os direitos dos cidadãos continuam desiguais, como na saúde e na educação. Nada de reformas profundas, e as castas dos banqueiros, dos intocáveis políticos, do Judiciário, dos chefes executivos e dos magnatas empresários continuam chicoteando seus escravos que trabalham para eles. A classe média se empanturra e se enterra no consumismo. Fica contente em financiar um carro e um pequeno apartamento para pagar em 10 e 20 anos. A periferia vai construindo aos poucos seus barracos em locais irregulares e olhando os artigos de luxo nas vitrines. Anda de ônibus quando tem dinheiro. A periferia da periferia nada tem e vive em barracos feitos de lata e papelão com propagandas capitalistas. Os trabalhadores rurais, como os urbanos, vivem como escravos e ensinam a eles que competição é se subordinar ao patrão, e dar duro além do limite para ganhar o pão.
O esquerdista elogia o socialismo cubano, arrota bordões e chavões decadentes, mas vive em suas mansões tomando uísque importado. Do sertanejo lutador da terra árida e seca que ao amanhecer coloca sua enxada ao, ombro, facão na cintura e uma cabaça de água ao lado com seu chapéu surrado de couro, ao da periferia que cata lixo para vender ou faz algum biscate, as perspectivas e as esperanças de uma vida melhor ficaram nas pálidas reformas sociais.

O capitalismo aniquilou o ser humano que entrou em degradação; o comunismo-socialista não vingou. Os expoentes da Internacional Socialista hoje debatem e quebram a cabeça para encontrar uma fórmula revolucionária para salvar a humanidade, não mais na base da luta de classe. Não existe mais o condomínio internacional entre EUA e a Rússia, dividindo os países sob suas influências. O Estado passou a existir apenas no discurso teórico. A estrutura do próprio partido gerou oligarquias clientelistas independentes. As máfias dentro do poder assombram a sociedade. As estruturas das nações socialistas ficaram podres e foram sendo seduzidas pelos padrões de consumo capitalistas, pelos valores degradantes. No Brasil de FHC e de Lula, o Estado continua sendo negligente com seus cidadãos e com os direitos civis.

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