Condor é a maior ave de rapina que habita a Cordilheira dos Andes, conhecida como abutre-do-novo-mundo. Daí veio a denominação Operação Condor, esquematizada pelas ditaduras do Chile, do Paraguai, do Uruguai, Argentina e Brasil durante as décadas de 70 e 80. Eram abutres à caça daqueles que contestavam contra os regimes militares. Eles batiam, espancavam, torturavam e matavam de forma sanguinária qualquer estrangeiro que fosse considerado terrorista-comunista. No Chile, Argentina e Uruguai, muitos deles estão sendo punidos pelo que fizeram, mas no Brasil foram cobertos pelo manto da Anistia e da impunidade, como sempre acontece.
Agora um juiz italiano resolveu emitir mandados de prisão para 140 latino-americanos acusados de envolvimento nas mortes de cidadãos do seu país, sendo 13 brasileiros, entre eles o ex-presidente e general João Figueiredo que já morreu. Alguns ainda estão vivos, mas as autoridades brasileiras já disseram que eles estão protegidos pela Anistia, pela Constituição, e que os crimes já prescreveram. Os crimes de tortura e morte podem prescrever no Brasil, mas nunca para as famílias das vítimas que sofreram atrocidades.
Além dos estrangeiros tidos como subversivos no Brasil, a Operação Condor também funcionou como limpeza da área quando se ensaiava a abertura política rumo à democracia nos finais dos anos 70. Nesse esquema brutal teriam sido jurados de mortes, segundo denúncias de investigadores, os ex-presidentes Juscelino Kubitschek, João Goulart e o ex-governador Carlos Lacerda. Do Chile foram eliminados Orlando Letelier e Carlos Prats. No Uruguai foram mortos em atentados, o ex-senador Zelmar Michelini e o ex-presidente da Câmara, Heitor Gutierrez.
Por duas décadas, órgãos do país atuaram em colaboração com os serviços secretos estrangeiros e se envolveram diretamente na repressão política em toda América Latina, inclusive com ajuda dos Estados Unidos, que derrubaram presidentes como do Chlile, Salvador Allende, em 1973. Através dessa Operação, mais de duas dezenas de cidadãos do Brasil foram presos, torturados e assassinados na Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai.
Na Argentina e no Chile, mortos foram reconhecidos, mas no Brasil se desconhece qualquer iniciativa dos governantes, nos últimos 22 anos, com o propósito de promover investigações sobre os desaparecimentos de brasileiros durante a ditadura em países vizinhos. A Corte Suprema da Argentina, por exemplo, solicitou ao Supremo Tribunal Federal do Brasil, informações sobre argentinos presos no Brasil. O presidente Carlos Menem, em 1996, pediu a intervenção do presidente Fernando Henrique para ajudar as famílias com desaparecidos em território brasileiro.
Por iniciativa do Brasil, com acompanhamento dos EUA, foram seqüestrados no Aeroporto do Galeão(Rio de Janeiro), os montoneros Horácio Campiglia e Mônica Binstock. O general João Figueiredo, na época chefe do SNI, foi o personagem mais ativo em cooperação com o Chile e outros países na repressão política. Figueiredo chegou a entregar ao embaixador do Paraguai, uma lista com 13 nomes de paraguaios, muitos deles no Mato Grosso, que tinham ligações com os comunistas brasileiros, dando todos os detalhes.
Após o golpe militar no Chile, em 1973, agentes brasileiros foram enviados àquele país para ajudar na operação de interregatórios, e torturar prisioneiros no Estádio Nacional de Santiago.. O regime militar brasileiro aprimorou métodos de tortura apoiando-se na cooperação estrangeira, especialmente EUA e Inglaterra. Logo depois, a colaboração entre Brasil e Chile tornou-se mais próxima mediante esforços do general Figueiredo e o comandante Manuel Contreras. A colaboração incluiu participação em tentativas de golpe no Peru e até em Portugal.
Os participantes e colaboradores da Operação Condor, no Brasil, negam, como era de se esperar, os crimes praticados. Um deles é o coronel João Osvaldo Leivas, ex-secretário de Segurança do Rio Grande do Sul. O coronel Carlos Alberto Ponzi, também do RGS, disse que não está nem um pouco preocupado, e não deve estar mesmo porque sabe que tudo isso não vai dar em nada, como aconteceu com a queima dos documentos sigilosos na Base Aérea de Salvador.
Dos 13 brasileiros citados pelo juiz italiano, pelos menos estão mortos o general Figueiredo, o ex-ministro Walter Pires e os generais Otávio Aguiar Medeiros e Antônio Bandeira. Quem resgatou toda história “Condor” foi o cineasta Roberto Mader. Segundo ele, não adianta jogar tudo isso embaixo do tapete. O general da reserva, Agnaldo Del Nero afirmou que eles não matavam, e que só faziam prender e entregar os ditos subversivos aos países estrangeiros. Foi o que aconteceu com os ítalo-argentinos, Horácio Domingos Campiglia e Lorenzo Ismael Vinas - disse. “Como a gente não matava, entregava”.
Acredite se quiser. O que se sabe é que muitos foram mortos e outros desapareceram. Mesmo com a Anistia, os familiares podem pedir a investigação dos casos à Justiça italiana. Existem vários ítalo-brasileiros, como Carlos Marighella, em 1969, e o guerrilheiro do Araguaia, Líbero Castiglia(72/74) que foram mortos. Os torturadores nem estão aí e ainda dizem que apenas prendiam e entregavam os presos.
O escritor Heitor Cony, em seu livro o Beijo da Morte e em crônica no jornal A Tarde, lembra a Operação Condor no final dos anos 70 como limpeza da área nos países do Cone Sul. Situa o nascimento da Operação em agosto de 1975, visando o expurgo de elementos que ameaçavam a paz dos regimes totalitários da América do Sul. Foi em agosto, segundo Cony que o coronel da DINA(Serviço de Inteligência do Chile), ou polícia-política, Manuel Contreras enviou correspondência ao general Figueiredo sugerindo a criação da Operação entre os países.
Naquela época, os governos temiam mudanças dos regimes porque o Partido Democrata dos EUA tinha tudo para ganhar as eleições presidenciais. Os Democratas apoiavam Kubitschek, no Brasil, e Letelier, no Chile. Diz Cony, que a Operação não foi mencionada entre as hipóteses que cercaram as mortes de JK, Letelier, João Goulart(1976) e Carlos Lacerda(1977). Juscelino morreu de acidente numa estrada de São Paulo, em agosto de 1976, um dos citados por Manuel Contreras em ofício enviado a ao general Figueiredo. Um mês depois, num atentado a bomba, morria, em Washington, Orlando Letelier, do Chile. O atentado foi apurado nos EUA e incriminou o coronel Contreras. Depois vieram as mortes seguidas de João Goulart e Carlos Lacerda. Eles temiam que esses homens voltassem ao poder, e a idéia era justamente limpar a área no sentido vertical, bem como horizontalmente, caçando aqueles que tinham menor expressão, mas mesmo assim eram perigosos ao regime.
É uma pena que os jovens de hoje pouco sabem sobre o que aconteceu naqueles anos de Chumbo, de terror e matanças cujos protagonistas ficaram impunes no Brasil. Teve gente que chegou a pedir indenização como o traidor cabo Anselmo. Depois da abertura democrática, muitos deles serviram e ainda servem no Governo, principalmente no de Sarney, a partir de 1985.
Considero o ponto de abertura a partir de 1990 quando foi eleito Fernando Collor através do voto direto. Até hoje esses militares resmungam e rosnam fazendo ameaças quando algo causa-lhes incômodo ou desagrado, como ocorreu no lançamento do livro sobre as memórias da ditadura. Acham que não se deve mais bulir nisso, apagar a história. Não se apaga uma história de atrocidades desse tipo. Ao contrário, essa história deve ser revivida todos os dias, especialmente nas escolas, com todos os detalhes.
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