segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

O RETORNO DO DRAGÃO

Nas décadas de 70, 80 e até meados dos anos 90, bem próximos de nós, o dragão da inflação soltava rajadas de fogo, queimando e deixando em cinzas os salários dos trabalhadores. O pouco que a classe média poupava era consumida todo final de mês. Naquela época, não valia a pena aplicar dinheiro em negócios. Tinha um bezerro de ouro chamado overnight que rendia lucros todos os dias. O dinheiro do alvorecer do dia não era mais o mesmo do anoitecer. Os supermercados remarcavam os preços por minuto, e no Governo Sarney, no final dos anos 80, a inflação do mês chegou a mais de 70%.

Planos e mais planos, pacotes e mais pacotes econômicos foram implantados e nada conseguiu deter o dragão. Fernando Collor disse que ia matar o bicho com uma bala só. Tudo não passou de mais uma bravata. O lendário animal que aterrorizava a família brasileira só foi domado em 1994, com o Plano Real. Em 2001/02 ele mostrou suas garras e que ainda estava vivo, mas se conseguiu anestesiar o danado. No ano passado, despertou da anestesia e está tentando se levantar da toca para fazer seus estragos.

Em 2007, o IPCA que mede essa inflação brasileira chegou a 4,46%, marca que excede 1,32% do índice de 2006. Desde 2002 que o tal dragão foi esquecido e nem se falava mais nele. E sabe quem está reanimando o lançador de chamas? Os compenetrados economistas apontam vários fatores, mas o principal deles é o ambiente globalizado das grandes bolsas de negociações, como é caso da soja, do milho, carne e até do leite, estes últimos devido a escassez de produção na Austrália e Nova Zelândia. O boom do etanol dos Estados Unidos, fabricado do milho, é outro vilão.

Parece contraditório e o inverso do que diz a lei da oferta e da procura, mas as safras dos EUA, América Latina, China e Índia foram excelentes, alcançando 2,1 bilhões de toneladas, um recorde planetário. Acontece que houve forte acréscimo no consumo, especialmente na China e Índia. Como resultado do aumento dos preços, os países em desenvolvimento gastaram U$745 bilhões com importações de alimentos, piorando suas balanças comerciais. A tendência é que a demanda aumente em 2008, segundo organismo internacionais ligados à alimentação.

Além, é claro, da demanda externa, no mercado interno tivemos a alta do feijão puxada pela seca que castigou várias regiões do país, principalmente o Nordeste. A carne também subiu em razão da estiagem, mas este produto está atrelado às cotações internacionais. Quando o produto está com bom preço lá fora, o empresário prefere vender para o gringo. Afinal de contas, vivemos uma globalização de competição e não de cooperação. Vale quem der mais, e o pobre que se dane. Vale o livre mercado neoliberal.

Bem, deixa pra lá esse papo de grã-finos e vamos ao que mais nos interessa que é a nossa casa. Aqui, a inflação dos alimentos representou 60% do IPCA. No caso da carne, por exemplo, a alta em Salvador foi de 15,12% em dezembro. O feijão foi outro que deixou muita gente afastada dele. O precioso alimento do brasileiro subiu 68,55% na Região Metropolitana de Salvador, em 2007. No país, a média de reajuste foi de 32% no período. Esses números todos de alta nos preços sufocaram mais os pobres, com renda entre um a seis salários mínimos. Tanto quanto essa camada, ou mais ainda, os aposentados receberam a maior carga. O IPC dos aposentados em 2007 foi de 5,04%, contra 2,26% em 2006. Mais uma vez, o grupo alimentos foi o que mais pesou, sem contar os remédios e os planos de seguro de saúde.

E por falar em aposentados, o governo federal está mesmo tentando exterminá-los, como faz o dragão da inflação. Os salários para quem ganha acima de R$380,00, entre R$1.000,00 a R$2.000,00, estão se achatando e, em pouco tempo vão virar mínimo. Os reajustes são ridículos, e aí o dinheiro vai encolhendo até se igualar ao salário mínimo dado pelo governo todos os anos. Que política é essa defendida pelos ditos socialistas de esquerda? O negócio é enganar com o Bolsa Família assistencialista.

Por outro lado, está aí o estrago nos preços que o etanol do milho está fazendo nos EUA, mas Lula quer empurrar a monocultura da cana-de-açúcar em terras brasis para produzir etanol, provocando a escassez de alimentos e o conseqüente aumento em seus preços, sem falar no desmatamento das florestas.

Não me venham com o papo de que as áreas vão ser zoneadas e as florestas poupadas. Ora, o que estamos vendo é que o governo já não fiscaliza as derrubadas desastradas de nossas árvores, agora imagina quando começar a ganância em ganhar dinheiro com o etanol da cana-de-açúcar? Só em ouvir falar da mina de ouro que vai ser o etanol da cana, as empresas e os magnatas do capital já estão empurrando para bem longe os pequenos proprietários de terras que praticam a agricultura familiar. Vão prosperar os latifúndios.

Que socialistas esquerdistas de plantão visam satisfazer o capitalismo externo, em detrimento dos mais pobres? Nessa Fidel Castro, de Cuba, e Chaves, da Venezuela, estão certos. O interesse dos EUA em apoiar a política do etanol da cana de Lula é outro: sufocar os produtores de petróleo e comprar biocombustíveis bem mais barato dos países subdesenvolvidos e pobres. Conversa de que está preocupado com o meio ambiente. Os americanos sempre foram bonzinhos, para não dizer o contrário.

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