quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

O CARNAVAL DO APARTHEID

Uma festa européia, trazida para o Brasil, o carnaval tinha como modelo original a exclusão do negro, do índio e do mestiço. Seu formato foi se modificando com o tempo, abrindo espaços para a popularização e a socialização. Só que nos últimos tempos, a pretexto de profissionalização, o carnaval terminou virando um evento das elites, e hoje o que temos é um verdadeiro apartheid social. Muitos acham que é também racial, mas não vejo por este prisma. A questão é social mesmo, tendo em vista que exclui a camada social mais pobre, sem distinção de cor, impedindo a sua participação nos blocos ou de freqüentar os camarotes.

É assim o carnaval de Salvador, cheio de distorções e contradições. Os trios elétricos das celebridades artísticas e de empresários dominam as ruas e avenidas com seus blocos numerosos e de acessos caros, empurrando e espremendo cada vez mais o folião “pipoca”. O esquema funciona como um rolo compressor que vai passando por cima da massa, não importando a cor. A individualização racial já é uma tendência de divisão de brancos e pretos que hoje está cada vez mais textualizada nos depoimentos.

Com a omissão do poder público, os blocos de elites cresceram e definiram suas características no carnaval de Salvador. Os desastres aparecem a cada ano, como aconteceu com a confusão no Teatro Castro Alves durante a aquisição de ingressos para as arquibancadas. Lá estavam os pobres, negros, brancos e mestiços, tentando comprar uma entrada mediante quilos de feijão, arroz ou latas de leite. No corre-corre e empurrões, por pouco não houve uma tragédia com mortes.

O poder público, mais uma vez, levou os pobres a uma humilhação degradante. Para ver os ricos desfilarem, os organizadores colocaram os pobres para doarem alimentos para os pobres. Aí, os cambistas entraram em cena e conseguiram boa parte dos ingressos que foram vendidos aos riquinhos por até R$100,00. Ora, a medida se inverteu e só os de maior poder aquisitivo vão ter acesso às arquibancadas. Outros comercializaram seus ingressos para comprar mais alimentos. Pelo menos nisso a medida serviu para gerar mais uma renda de sustento para as famílias pobres.

Outra questão são os patrocínios das empresas que são direcionados para os mesmos tipos de blocos e trios, ficando evidente a desigualdade e o quanto o carnaval é antidemocráico. Mais uma vez, não considero aí uma atitude terminantemente racial, mas social. Quem tem dinheiro sobrando compra os abadás dos blocos, não importando a cor. Ocorre que a maior parte da população de Salvador, mais de 80%, é constituída de negros e quase todos são pobres. Os brancos pobres também ficam de fora do carnaval e são empurrados pelos trios e blocos. O problema é de concentração de renda que é gritante na capital e em todo país, regido pelo capitalismo selvagem e desigual.

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