segunda-feira, 26 de novembro de 2007

TRISTE PARTIDA

É amigo Rui Bruno Bacelar de Oliveira, você me pegou de surpresa ao partir da terra que tantos serviços prestou com sua inteligência, seus conhecimentos e sua visão de vida; de mundo, de Brasil, da Bahia e de Conquista, sem contar sua ética, honestidade, assiduidade ao trabalho e seriedade. Para mim, seus amigos e familiares, foi uma triste partida.

Quanto a vida aqui na terra e os ministérios que nos separam do outro lado de lá, não posso dizer se foi triste. Só sei dizer que fica dentro de mim a saudade, e nunca vou esquecer dos nossos longos papos produtivos nos finais de tarde e começo da noite quando nos reuniámos no bar Canteiros, do Hotel Livramento, com o fotógrafo D´Almeida e outros. Você pedia sua pequena dose de uisque com água, e eu a minha cervejinha. Chegava sempre com um CD de sua preferência e mandava o garçom colocar para tocar. E a sua gaita, Ruy! Espero que tenha levado consigo. Se esqueceu, você vai conseguir outra aonde estiver. Toque lindas músicas...

No bar, giravam boas discussões sobre política, filosofia, literatura, economia, modo de vida, as aberrações e contradições da vida pública brasileira, entre outros assuntos. Às vezes, o debate esquentava e cada um tinha seu ponto de vista, mas saíamos brincando e gozando um com o outro. Aprendi muito com você nas conversas e nas entrevistas que me deu como jornalista, especialmente sobre temas da geofísica do qual era e ainda é doutor.

Além da sua especialização, o professor Ruy Bruno Bacelar carregou muita coisa do seu pai Bruno Bacelar e foi escritor e historiador, deixando para nós vários livros, teses, depoimentos, comentários e artigos, destacando "De Caldeirão a Pau de Colher: a Guerra dos caceteiros", que faz uma análise das conjunturas política e econômica do Brasil, sobre o misticismo no Nordeste, o bombardeio da Chapada do Araripe onde se escondiam os remanescentes de Caldeirão e a história do beato Severino Tavares. Outro livro importante escrito por ele foi "Canudos: O Assassinato da Liberdade". Em suas análises e pontos de vista sempre foi incisivo e defendia seu pensamento com convicção, coragem e sabedoria.

Eu queria um dia lhe agradecer muito por ter me incentivado a escrever "Terra Rasgada - crônicas, versos e prosas" e " A imprensa e o Coronelismo no Sertão do Sudoeste", inclusive sobre este último me passou muitos subsídios a respeito do jornalista seu pai Bruno Bacelar, e mais informações sobre a mídia escrita na região.

Onde estiver agora, faço o meu agradecimento por ter me ensinado e estimulado a escrever, mesmo sabendo das agruras da arte. Me deu forças também para que eu escrevesse um trabalho sobre a Serra do Periperi, pena que não foi possível a sua publicação por falta de patrocínio. No entanto, guardo comigo sua colaboração como geofísico quando se dispôs subir a Serra comigo e meu filho Caio, para realizar uma análise geofísica da área. Estão aqui comigo todas suas conclusões sobre o terreno, o lençol freático e mais detalhes da Serra, tão agredida nos últimos 50 anos pelo ação pedradora do homem. Você se irritava Rui, e tinha razão, quando se fazia uma agressão á natureza. Me ajudou a denunciar vários fatos contra o meio ambiente.

Além de historiador, escritor e um grande geofísico, Ruy prestou grandes serviços à comunidade de Conquista e da região. Foi ainda durante muitos anos, professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb. Pena que foi pouco reconhecido pelos filhos da terra. Aliás, Vitória da Conquista não tem dado o valor merecido às pessoas da terra que se dedicam à cultura, à ciência, ao conhecimento geral e às artes. Como Ruy, tem muita gente aí que foi relegada ao esquecimento, e a sociedade nem se lembra mais dos serviços prestados.

Ah! ia me esquecendo, você viajou muito pelo mundo antes de fazer a última viagem. Ajudou muita gente, como o revolucionário Carlos Mariguella quando se encontrou como ele no Rio Grande do Sul na época da perversa ditadura militar. Que Deus nos livre dessa praga!

Meu adeus ao companheiro e camarada Ruy Bruno Bacelar de Oliveira, e onde estiver, tenho certeza que está em paz e gozando de tranquilidade. Siga em paz, meu amigo batalhador que sempre condenou essa corrupção que se alastrou pelo Brasil afora. Você foi e ainda é um dos companheiros que conheci que tinha vergonha na cara.

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