Costumam dizer por aí que fazer cultura neste país é um ato de heroísmo, mas entendo que ser herói por aqui é ser medalhista de competições esportivas, ou jogador de futebol que ganha muito dinheiro. Quem faz cultura no Brasil é persistente e teimoso; vive o tempo todo irritado e desgastado com os absurdos. Talvez seja por isso que esse pessoal morre mais cedo, a não ser os apadrinhados famosos de sempre da capital. Nós aqui do interior, penamos e quando chega alguma coisa, é a sobra.
É duro ser pedinte e viver mendigando para realizar um evento cultural, especialmente no campo da literatura. Na maioria das vezes, se recebe um não, e onde se espera mais apoio do poder público, vem alguém e diz que não existem recursos para esse tipo de coisa. Portas se fecham e dá vontade de desistir; largar tudo. Mas, ainda existem pessoas que acreditam e abraçam a causa, o que nos leva a continuar caminhando.
Na semana passada, um grupo de abnegados resolveu realizar uma Noite Cultural, na Livraria Nobel, no Shopping Conquista Sul. Foi muito difícil e sacrificado, mas ao receber o convite do amigo José Maria, proprietário da Livraria Nobel, para lançamento do meu livro "A Imprensa e o Coronelismo" fui em frente. Chamei o amigo fotógrafo José Carlos D´Almeida para ajudar na empreitada de organizarmos uma exposição de fotojornalismo. Convidamos os fotógrafos José Silva, Edna Nolasco, Sabiá e Nilton Gonzaga para se juntar ao grupo. Prontamente tiveram a boa vontade de participar. Na abertura musical, contamos com a presteza do amigo Mano Di Sousa na voz e violão que interpretou belas conções populares brasileiras.
Encontramos inúmeras dificuldades para preparar o evento, mas não podia decepcionar o convite do promotor de cultura desta cidade, o José Maria que cedeu seu estabelecimento e, como sempre, nos incentivou. Só temos a agradecê-lo mais uma vez. No entanto, confesso que pensei em desistir. Nem tudo está perdido neste cenário capitalista onde só se pensa no lucro imediato e não se dá importância á cultura. Ainda existem visões abertas e contamos com o apoio da Águia Filme, do Sebrae, da Assessoria de Comunicação da Câmara de Vereadores, do artista plástico Sérgio Souto(Squadro), de Anderson com seu blog e do amigo Carlos Moreno. Agradecemos também a imprensa que nos deu cobertura.
No final, tudo deu certo, mesmo com poucas presenças. A exposição de fotos foi um sucesso, especialmente no quesito qualidade, com temas variados, desde as questões do meio ambiente aos problemas sociais. São fotos belíssimas que ainda podem ser vistas durante esta semana, na Livraria Nobel - Conquista Sul. Se houvese mais apoio à cultura nesta cidade, bem que a exposição poderia ser ampliada, mais trabalhada e se transformar numa grande atração, inclusive percorrendo outras cidades baianas.
Tudo isso, me faz voltar ao debate de como a cultura está abandonada no interior. A grande maioria que faz cultura, nas áreas da música, teatro, literatura, dança, artes plásticas sempre se queixa da falta de apoio. O crítico de cinema, André Setaro foi massacrado num seminário só porque afirmou que os cineastas baianos viviam mendigando verbas do governo para realizar um filme, e olha que esses artistas estão na capital onde os acessos são mais fáceis e quase todos recursos ficam por lá.
No interior, a cultura sempre ficou a ver navios. As grandes exposições, apresentações musicais de expressão, concertos e debates culturais chegam até Salvador e retornam de lá mesmo. Recentemente foi feita uma exposição de fotografias em Salvador sobre o período da ditadura militar. Com um pouco de esforço e vontade política do governo, não poderia ter passado também nas principais cidades do interior, para ser visitada por essa geração nova que pouco sabe dessa fase? É um exemplo, mas existem tantos outros.
O novo secretário de Cultura, Márcio Meireles prometeu olhar para o interior, mas ainda não deu para se notar mudanças. Os trâmites para se ter acesso à cultyura continuam burocráticos, especialmente para o artista do interior. É preciso que na prática a Secretaria de Cultura não seja apenas da capital. Como está, o Governo do Estado bem que poderia criar a Secretaria de Cultura do Interior, ou para o Interior. Por aqui, existem muitos talentos adormecidos, e outros com obras engavetadas. A memória da nossa história também está se perdendo. Para resgatar tudo isso e incentivar a cultura, temos que criar nossa cooperativa ou associação de arte, unindo todas as linguagens artísticas, e podemos começar a fazer isso a partir desse grupo que participou da Noite Cultura.
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