


O verde, o amarelo, o vermelho e até o lilás, com cores vivas da caatinga na época das trovoadas de verão, deram lugar ao cinzento da seca no sertão do nosso sudoeste que mais uma vez sofre com a estiagem e pede socorro. No quadro do pintor da natureza, só algumas pinceladas de verde dos cactos e mandacarus entre árvores retorcidas. Em algum lugar, a fumaça das queimadas, cujo fogo lambe e engole a capoeira seca, aumentando mais ainda o calor. No final da tarde, depois de tocar o gado para beber num poço sujo de lama, o sertanejo reúne seus cabritos e olha no horizonte limpo o pôr-do-sol com ar desesperançoso. Nenhum sinal de água do céu para molhar a terra. Começa a matutar e amadurecer as idéias de que tem que partir para bem distante a procura de trabalho para sustentar a família. Sobre as promessas de melhora dos governantes, aponta com o braço estendido de que os políticos só aparecem nas épocas de eleições. Diz ainda que seu compadre vizinho se foi depois de ter perdido a lavoura e o rebanho. Era seu único cabedal. O homem que ainda ficou, possui umas rezes magras, um facão para cortar os galhos secos e um bornal quase vazio. No rancho, uma mulher e muitos filhos para dar de comer. Ele não recebe a cesta básica e afirma que não é disso que precisa, mas de um programa do governo que faça com que ele possa conviver e sobreviver no semi-árido, com água para matar a sede, dar aos animais e plantar suas lavouras.
Passa ano e entra e ano, e a cena se repete no sertão do sudoeste e em todo semi-árido baiano que ocupa mais de 60% do território do nosso Estado. Nas minhas recentes viagens, vi mais uma vez, a cara da seca nos municípios de Anagé, Brumado, Tanhaçu, Ituaçu, Malhada de Pedras, na região de Belo Campo, Igaporã e no norte da Bahia, entre Senhor do Bonfim e Juazeiro. De tanto serem castigadas pela falta de chuvas, pelos desmatamentos, queimadas e pela extração de carvão para sustentar as siderúrgicas de Minas Gerais, as terras estão ficando desertas e muitos rios desapareceram, como já está acontecendo com o Rio do Antônio, aqui no sudoeste. Até o momento, a desertificação d semi-árido não passou das discussões acadêmicas em auditórios confortáveis, com ar-condicionado e uma boa água gelada para se beber.
A maiora dos municípios do sudoeste já perdeu suas lavouras com a estiagem e o homem do campo está vendo suas forças se esvaírem. As prefeituras já começam a receber levas de sertanejos que procuram por ajuda para manter suas famílias. As pequenas barragens abertas não são suficientes para atender as necessidades da falta de água, e os poços são salgados. Algumas cisternas ainda têm água, mas se a estiagem prolongar por mais dois ou três meses, é certa a escassez do líquido. Em alguns locais, já começam a rodar os carros-pipa, instrumento eleitoreiro de políticos inescrupulosos, degradante e arcaico. Para completar, algumas barragens foram construídas em fazendas particulares, beneficiando o compadrio.
Olhando o sertão cinzento e misterioso, é difícil entender como nele resiste o homem, lutando de todas as maneiras para se livrar da pobreza e da miséria. Não fosse algumas aposentadorias, a fome seria bem maior. Mesmo assim, em muitas casas, ao meio-dia, a mulher só tem uma panela de água com alguns caroços de feijão para dar aos seus pequenos filhos. Lá fora, o sol continua firme; a terra é árida e a única saída é partir para terras langinquas, deixando tudo para trás como no canto de Luiz Gonzaga em "Triste Partida" . Às vezes, ficam as mulheres com os filhos menores que passaram a ser chamadas de "viúvas da seca". Quando o fenômeno aparece, a imprensa se enche de manchetes e os governantes acodem com algum paliativo até passar o sofrimento. Depois tudo é esquecido e nem a imprensa, que ganhou com o espetáculo da miséria, volta a cobrar os projetos para sanar o problema.
Com seriedade, tecnologia avançada e muitos investimentos, os israelenses transformaram o Deserto de Neguev numa prosperidade em termos de agricultura e alimentos para o povo. Antes, os mais de 10 mil quilômetros quadrados de areia eram habitados por nômades em busca de água. Depois de 1948, os governos transformaram a área em enormes plantações sistematizadas por tecnologia. A agricultura instalada na região árida permite extrair sustento. Os impérios Otamanos e Britânico consideravam o deserto imbatível. O primeiro grande projeto de abastecimento para os novos agricultores foi a tubulação que transfere 100 milhões de metros cúbicos de água por ano, cobrindo uma distância de 130 quilômetros. Por aqui, ficamos discutindo a Transposição do Rio São Francisco que só vai beneficiar empresários.
Nenhum comentário:
Postar um comentário