quarta-feira, 20 de junho de 2007

"A IMPRENSA E O CORONELISMO"

“A IMPRENSA E O CORONELISMO”



A recente obra do jornalista Jeremias Macário de Oliveira, “A Imprensa e o Coronelismo no Sertão do Sudoeste”, que também já escreveu “Terra Rasgada – em Prosa e Verso”, recupera e resgata a memória da imprensa escrita do sudoeste baiano. A história dessa imprensa regional, como de toda Bahia, está sendo perdida com o tempo. Os exemplares dos periódicos estão expostos, sem os cuidados adequados, em arquivos públicos, museus e através de coleções de particulares. São retalhos da vida de um povo, os quais precisam ser reconstituídos.
Dentro desta ótica e preocupado em recuperar este valioso acervo de nossa história, foi que o jornalista Jeremias Macário, mesmo com poucos recursos de que dispunha, resolveu pesquisar e levantar dados que resultaram na publicação do livro que serve de subsídio para escolas, professores, estudantes de jornalismo, pesquisadores e interessados no assunto em geral. A publicação contou com apoio da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-UESB e Associação Bahiana de Imprensa-ABI.
Trata-se de um trabalho inédito na Bahia que levanta a história dos antigos jornais do sudoeste, com depoimentos de jornalistas e historiadores. Foram quatro anos de pesquisas e reportagens do jornalista que atuou no Jornal A TARDE por quase 33 anos, dos quais 14 como chefe da Sucursal de Conquista. Em suas andanças pela região como repórter, colheu dados, observou e analisou a trajetória e as características desta imprensa que muitos a chamam de “Caipira”.

Projeto-pilôto

Em linguagem jornalística, na forma de texto-reportagem, sem pretensões e intenções acadêmicas, “A Imprensa e o Coronelismo no Sertão do Sudoeste” é um projeto-pilôto, cujos estudos deverão ser ampliados e aprofundados, cobrindo todo território baiano, conforme é do interesse da Associação Bahiana de Imprensa, em conjunto com outras instituições. O estudo é o passo inicial de uma longa caminhada para um trabalho de equipe bem mais completo que fará parte das comemorações dos 200 anos da imprensa escrita na Bahia, em 2011 – entende o escritor.
Com prefácio do jornalista Agostinho Muniz, da ABI, o autor abre o livro descrevendo os objetivos e as justificativas que levaram a realizar o projeto e situa o leitor, geograficamente, dentro da região sudoeste, ao abordar as questões socioeconômicas e educacionais de uma população de mais de um milhão de habitantes, envolvendo, principalmente, os municípios de Vitória da Conquista, Jequié, Guanambi, Caetité, Brumado, Condeúba, Rio de Contas, Livramento, Paramirim, entre outros.
A obra faz referências ao surgimento da imprensa escrita no Brasil e na Bahia, antes de focalizar a história do jornalismo impresso no sudoeste, destacando o pioneirismo do jornalista e escritor João Gumes, em Caetité, com o jornal A PENNA, lá pelo final do século XIX. Rio de Contas, portal da Chapada Diamantina, com suas belezas e um rico patrimônio histórico e arquitetônico, também faz parte do cenário da sua obra. No início do século passado, os primeiros periódicos, como o Cinzel, registraram fatos marcantes daquela terra, sempre cobiçada pelos colonizadores portugueses atraídos pelo o ouro. Em Rio de Contas ocorreram os primeiros atos de violência contra a liberdade de imprensa, ao ponto de um jornalista ter sido obrigado a fugir da cidade pela madrugada para não ser morto pelos políticos mandatários.
Em Vitória da Conquista, comandada nos anos 20 e 30 pelos coronéis, o trabalho mostra ainda o relacionamento nada amistoso da imprensa com os chefes políticos. Para se defender das humilhações, um jornalista terminou atirando e matando um coronel. A própria história e o nascimento dos primeiros jornais são marcados por tragédias, intrigas e mortes contra os donos de veículos. A guerra entre Peduros e Meletes, em Conquista, envolveu dois importantes jornais: A Palavra e o Conquistense por volta de 1918.O livro relata toda uma trajetória de violência, opressão e censura, inclusive durante o governo do intendente Juracy Magalhães, a partir de 1930 com a ditadura Vargas.
Também é destaque em “A Imprensa e o Coronelismo”, a violência praticada nos anos 90 e início do atual século XXI. Em sua pesquisa, o escritor faz uma reflexão sobre as características da imprensa no século passado e condena os desvios comportamentais e éticos de donos de jornais que se voltam exclusivamente para interesses particulares e financeiros, em vez de se preocuparem com o público. De lá para cá, o modo de se fazer jornal no interior pouco mudou, conforme analisa o jornalista, criticando a falta de ética e de compromisso para com o leitor. A criação do primeiro curso de Jornalismo do interior, através da UESB, é um divisor na história da imprensa no sudoeste baiano. O livro acompanha todo processo de instalação do curso a partir do final dos anos 90.
Jeremias Macário, que já foi repórter, editor de Economia e chefe da Sucursal A TARDE de Vitória da Conquista, além de ter trabalhado em outros veículos e assessorias de comunicação da capital por muitos anos, sempre argumenta que o direito à liberdade de imprensa acaba quando não se tem ética e responsabilidade, e é isso que ele procura defender em seu livro. No entanto, condena em sua obra, qualquer tipo de abuso e violência contra a imprensa de um modo geral.

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