segunda-feira, 18 de junho de 2007

ESQUECERAM O VALE DO IUIU

PROJETO DE IRRIGAÇÃO DO VALE


Texto de Jeremias Macário

De redenção e salvação da economia da região de mais de um milhão de habitantes no final dos anos 80 e na década de 90, dos movimentos políticos e de toda sociedade visando tirar os municípios da decadência devido ao fracasso do algodão, o Projeto de Irrigação do Vale do Iuiu, localizado a 900 quilômetros de Salvador, caiu no esquecimento, e a área de cerca de 9 mil hectares que seria irrigada teve boa parte desapropriada pelo governo federal, mas logo depois foi invadida e ocupada pelos Sem-Terra.
O Projeto começou a ser cogitado e idealizado por volta de 1986/87 quando Nilo Coelho, atual prefeito de Guanambi, era vice-governador da Bahia, numa área de pouco mais de 50 mil hectares e investimentos superiores a R$600 milhões financiados pelo Banco Mundial. Na década de 90, a euforia era grande na região da Serra Geral, especialmente nos municípios de Iuiu, Sebastião Laranjeiras, Candiba, Palmas de Monte Alto, Malhada e Guanambi. Era a esperança para salvar a economia que havia caído em crise devido a derrocada do algodão.

Codevasf frustra planos

De responsabilidade da Codevasf(Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco e Rio Parnaíba), entre o final dos anos 90 e início dos anos 2000, o projeto chegou a ser dimensionado, licitado e feitos os detalhes técnicos de operação para o plantio de uma enorme quantidade de culturas, como frutas e hortaliças. Centenas de produtores e empresários do comércio e da indústria de mais de 40 municípios até Vitória da Conquista chegaram a fazer planos para aumentar seus negócios em decorrência da comercialização dos produtos, mas a Codevasf frustrou todos eles. O comentário geral era que iria correr muito dinheiro, e os lojistas, inclusive de peças, automóveis e máquinas agrícolas, já se preparavam para expandir seus estabelecimentos.
Mas, o tempo foi passando e o projeto de Irrigação não saiu dos discursos dos políticos e governantes e, a partir do segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, foi caindo no esquecimento e sendo reduzido de 50 mil para 9 mil hectares. Hoje, a superintendência da Codevasf, em Bom Jesus da Lapa, pouco fala sobre o assunto. Nossa reportagem procurou saber sobre o projeto, mas não houve resposta. A Assessoria de Comunicação apenas disse que a empresa não dispõe de recursos e que agora se espera por uma possível iniciativa das Parcerias Públicas Privadas(PPP), ou do PAC-Programa de Aceleração do Crescimento do governo federal. A conversa é que o projeto vai entrar em discussão, mas até o momento só se tem falado da irrigação do Baixio de Irecê e do Salitre, em Juazeiro.
Dentre as lideranças do movimento em prol da implantação do Projeto de Irrigação do Vale do Iuiu, o presidente da Câmara de Vereadores de Guanambi, Elder Guimarães, continua lutando e não perde as esperanças. Ele pretende encaminhar um documento ao Ministério da Integração Nacional pedindo a atenção da Codevasf para o projeto. Ele lembra quando representantes e técnicos(Codevasf e outros órgãos) do governo federal estiveram em Guanambi e disseram que os projetos de Ceraima(Guanambi) e do Vale do Iuiu eram prioridades. “Só que a Codevasf não fez nada para revitalizar e recuperar o projeto de irrigação de Ceraima, nem implantou o do Vale do Iuiu.” A Codevasf, como se comenta em Guanambi, preferiu entregar a área para os Sem-terra.
Dos 9 mil hectares previstos para serem irrigados em Iuiu, segundo Guimarães, 6.300 hectares chegaram a ser desapropriados e pagos aos favorecidos donos das terras por preços além do mercado. No governo de Fernando Henrique, a Câmara de Vereadores enviou ofícios para os ministérios competentes e para o relator do Orçamento, tentando sensibilizá-los quanto a importância do Projeto do Iuiu. Em tom de desabafo, Elder disse que o governo de Lula tem recursos suficientes para fazer a transposição das águas do Rio São Francisco, mas não tem para irrigar 9 mil hectares que gerariam 50 mil empregos para toda região de Guanambi. “Hoje, as terras estão sendo invadidas pelos Sem-Terra, e o Projeto de Irrigação ficou apenas na saudade”.

A HISTÓRIA DE UM PROJETO

Que fim levou o Projeto de Irrigação do Vale do Iuiu? É a pergunta que mais se tem feito na região quando se junta um grupo de produtores, comerciantes, lideranças das entidades de classe, técnicos e até de políticos, para se discutir questões e alternativas para a diversificação da economia. A sua história começou lá pelos meados dos anos 80, portanto, há mais de 20 anos. A imprensa da região e da capital, como A TARDE, sempre deu cobertura e noticiou todos os passos do movimento pela tão almejada e desejada implantação do projeto.
Nos exemplares da revista “Integração”(Guanambi), do jornalista João Martins, por exemplo, o assunto foi bastante divulgado desde a sua iniciativa. O projeto era considerado como a “salvação da lavoura”, eldorado e nova fronteira agrícola em seminários e conferências de técnicos, empresários e políticos. O ex-deputado federal, Prisco Viana, entre os anos de 1996/97, quando o algodão já havia entrado em decadência e a economia atravessava uma grande crise, dizia que a saída era a agropecuária através do projeto de Irrigação do Vale do Iuiu. Em suas entrevistas, destacava que o sucesso do projeto era tão grande que o Banco Mundial se prontificou a financiá-lo. Já naquela época, os políticos da Bahia e do Nordeste chegaram a negociar com o governo federal a transposição do São Francisco em troca da aprovação do projeto. Prisco Viana criticou a renúncia fiscal dada para a Ford se implantar em Camaçari quando se podia negociar a irrigação do Vale do Iuiu. Depois de tantas secas, o também deputado federal Nilo Coelho dizia ser a hora do governo olhar para o projeto.
Nos estudos de viabilidade econômica, o projeto foi dimensionado para pouco mais de 50 mil hectares, mas se falou em 254 e 165 mil, passando depois para 30 mil até chegar a 9 mil hectares. Em 2001 se falou em licitar a obra, mas o tempo passou e hoje o presidente da Câmara de Vereadores de Guanambi, José Elder Guimarães afirma que tudo ficou no discurso. Mas, houve uma época(década de 90 e início dos anos 2000) que os movimentos tiraram o projeto do discurso e parecia que tudo ia dar certo. Chegou a ser assinado um contrato de construção da obra entre a Codevasf e a empresa Ecoplan. Palestras e encontros na região animavam os pequenos produtores que faziam seus planos para ganhar dinheiro e sair da pobreza. Como estava planejado, seria o maior projeto de todo semi-árido baiano.
Em 1991/92, por exemplo, conforme relata a revista “Integração”, foram feitos estudos de campo e reconhecimento da área sul dos municípios de Iuiu, Malhada, Palmas de Monte Alto e Sebastião Laranjeiras. Três sistemas constavam das análises: aproveitamentos das águas do rio São Francisco; construção de barramentos no rio Verde Pequeno e Mandiroba; e aproveitamento das águas subterrâneas. Os técnicos chegaram a dimensionar uma área de 470 mil hectares quando 200 mil foram considerados irrigáveis e em Iuiu seriam construídas duas estações de captação das águas do São Francisco. Das terras, 90 mil hectares apresentavam algum tipo de cultura(algodão, feijão, milho), 130 mil eram cobertos por campos e capoeira e 200 mil de vegetação de caatinga, conforme relatório detalhado enviado o ex-deputado federal Nestor Duarte pelo presidente da Codevasf na época, Airson Bezerra Lócio. Anualmente, seriam implantados seis mil hectares, com uma estação de bombeamento com capacidade para 23,55 metros cúbicos por segundo, e uma tubulação com 3.140 metros de extensão.
Em junho de 1997 chegaram a ser concluídos os estudos de viabilidade econômica, técnico e ambiental para uma área bruta de 50 mil hectares, sendo 30 mil de área útil, 10 mil de reserva legal, 2,2 mil de preservação permanente e 1,6 mil para pecuária e sequeiro. Os pequenos irrigantes receberiam 2.533 lotes de seis hectares cada, as pequenas empresas 69 lotes de 50 hectares, as médias, 69 lotes de 100 hectares e as grandes, nove lotes de 200 hectares para plantar algodão, abacaxi, melão, melancia, coco, banana, goiaba, manga, tangerina, batata-doce, tomate, cenoura, pimentão, abóbora , uva, limão, entre outras culturas. O custo por hectare estava estimado em R$13 mil, devendo gerar 50 mil empregos, com investimentos de R$300 a 600 milhões. Com esta perspectiva de implantação, um movimento em 1997, no entroncamento de Iuiu, na BR-030, chegou a reunir mais de três mil pessoas entre políticos, produtores, empresários e diversas lideranças. Na época foi lançada a campanha “Vale” - Uma Esperança. Foi um marco na história daquele povo, dizia o presidente da União dos Vereadores da Região de Guanambi, Elder Guimarães

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